O tratamento à loucura no Brasil abastece um negócio rendoso e violento, que assegura às instituições hospitalares uma receita proporcionada por preços iguais ao da hotelaria por paciente internado. A cada ano são feitas 600 mil internações, a grande maioria efetuada de forma violenta, clandestinamente e durante as madrugadas. O paciente é agarrado contra a vontade, imobilizado numa camisa-de-força e confinado num hospital ou clínica psiquiátrica da qual só sairá com sorte, se obtiver alta médica, ou com coragem-- se fugir. Levantamentos do Movimento Nacional de Saúde Mental revelam que esse quadro está presente em todo o país, porque a legislação psiquiátrica é antiquada e repressora: não reconhece nenhum direito ao doente mental e admite o sequestro como meio legal de internação. Ricos e pobres igualam- se no uso do método de internações à força: os ricos, na disputa por bens da família, especialmente na partilha de heranças; os pobres, para aliviar a carga das dificuldades do orçamento doméstico. Além de destituídos de direitos, os pacientes são despojados de sua individualidade e de sua história pessoal: uma comissão da Assembléia Legislativa de São Paulo descobriu a existência de um "cemitério" com um total de 33.977 pessoas sem nome e sem família. Um paciente ficou internado 18 anos; sob tortura, confessou a autoria de várias explosões, entre as quais a do gasômetro de Santos (SP) (JC).