CONFLITOS ENTRE SEM-TERRA E PMs NO PARANÁ

Três policiais, integrantes do serviço secreto da Polícia Militar do Paraná (P-2), foram mortos durante um conflito com agricultores sem-terra que ocuparam no último dia três a fazenda Santana, no Município de Campo Bonito, região Oeste do Paraná. O sargento Vicente de Freitas, o cabo Algacir Bebber e o soldado Adelino Arconti estavam com o madeireiro Adecir Cassol na tarde de anteontem vistoriando a área ocupada. Eles usavam um carro particular e estavam sem uniforme. A cerca de dois quilômetros do acampamento, os policiais foram abordados por uma equipe de vigilância dos agricultores. Apenas o fazendeiro Cassol, que levou um tiro e está internado no hospital de Cascavel, uma cidade vizinha, poderá contar o que aconteceu: se houve uma tocaia preparada, um conflito com troca de tiros ou uma execução sumária. Representantes dos sem-terra entregaram no começo da noite de ontem à polícia o nome de seis suspeitos da morte dos PMs. Os seis teriam fugido anteontem à noite. Os nomes foram anunciados depois que o juiz do município vizinho de Guaraniaçu, Noedi Bittencourt Martins, decretou a prisão provisória de todos os sem-terra maiores de 18 anos por suspeita de assassinato. Durante a noite, a PM preparava uma operação de busca dos suspeitos. A revelação dos nomes diminuiu a tensão na área e grupos de mulheres e crianças foram removidos para um assentamento vizinho. Para cumprir a determinação judicial, a polícia está vigiando o despejo dos sem-terra. Todos terão de depor sobre o caso. O chefe da Casa Civil do governo do Paraná, Caíto Quintana, disse que o cerco policial na região só será suspenso depois que forem presos os assassinos. A PM tinha ordens do governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB) de somente liberar as 250 famílias (cerca de mil pessoas) sem-terra quando fossem apontados os assassinos. Requião desautorizou as negociações entre seus representantes e os sem-terra. O governador afirmou que poderá assumir pessoalmente o comando do cerco aos sem-terra "caso os assassinos não sejam entregues". Em nota oficial, o Movimento Sem-Terra do Paraná afirmou que "os verdadeiros responsáveis pelas mortes são as autoridades, o governo federal que até hoje não tomou medidas reais para a reforma agrária e a própria Polícia Militar, que está acostumada a tratar a questão da terra como caso de polícia". A disputa entre o grupo Agroindustrial Beledelli e trabalhadores sem-terra pela posse da fazenda Santana se arrasta desde agosto de 1991. Em outubro daquele ano, foi feito um acordo permitindo que as famílias ocupassem 900 hectares da fazenda. Em troca, os sem-terra assinaram documento se comprometendo a não ocupar novas áreas da fazenda. Na madrugada de anteontem, 250 famílias descumpriram o acordo e ocuparam 80 hectares da fazenda. No Rio de Janeiro, o presidente do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), Osvaldo Russo de Azevedo, condenou todo tipo de violência, ao ser informado do caso da fazenda Santana. "Esperamos que sejam apuradas as responsabilidades e que os culpados sejam exemplarmente punidos. A reforma agrária só pode ser conseguida através do diálogo e do respeito à lei. Queremos que os trabalhadores rurais, que vivem em situação de grande carência, fiquem certos de que o caminho da democracia é o único que nos levará a uma vitória exemplar no Brasil: a conquista da paz no campo", afirmou. O grupo de 370 sem-terra que há quatro dias ocuparam a sede do INCRA em Campo Grande (MS) continuava ontem acampado no estacionamento do prédio, aguardando uma solução para suas reivindicações. Os colonos pedem terra, alimentação e remédios para as 805 famílias acampadas no estado. A situação do grupo é precária. Eles dormem no chão e utilizam apenas um banheiro do prédio. Agricultores sem-terra concordaram ontem em desocupar a sede do INCRA em Chapecó (SC), depois que representantes da CELESC (Centrais Elétricas de Santa Catarina) confirmaram um levantamento técnico para a instalação de luz nos assentamentos. Em Abelardo Luz, uma fazenda foi ocupada por 100 famílias. O proprietário entrou com pedido de reintegração de posse. O comandante da PM para a região, Osmar Pereira, disse que a PM só vai atuar se houver solicitação do INCRA (FSP) (O Globo) (JB).