AUMENTA HOMICÍDIO ENTRE ÍNDIOS

O número de índios assassinados no Brasil por outros índios está aumentando. Foram 12 casos no ano passado, contra cinco em 1991. A constatação é do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), que ontem divulgou seu relatório anual sobre violência contra os povos indígenas. O levantamento aponta que em 1992 ocorreram pelo menos 20 tentativas de homicídios, 21 ameaças de morte, 10 agressões físicas, cinco prisões ilegais e 24 suicídios. Em geral, os números variaram pouco em relação ao ano anterior. "O estado de violência se mantém inalterado", afirma Francisco Loebens, secretário-geral do CIMI. O que mais chamou a atenção do órgão-- que é ligado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)-- foi a quantidade de crimes cometidos pelos próprios índios. Dos 26 assassinatos de índios ocorridos em 1991, apenas cinco haviam sido praticados por outros índios. Em 92 foram 24 mortos no total, a metade causada por índios. O CIMI supõe que a explicação para esses casos esteja nas "consequências desagregadoras" das invasões de terra, que geram discórdia e lutas de poder no interior das comunidades indígenas. Dois casos, por exemplo, ocorreram na reserva Atikum (PE), invadida por fazendeiros e por plantações de maconha. Dos 12 homicídios cometidos pelos índios, seis são atribuídos aos conflitos internos nas comunidades. Bebidas alcoólicas explicam dois casos, e os demais não têm causa determinada. Já entre as 12 mortes provocadas por não-índios no ano passado, nove são atribuídas a disputas com invasores de terras, garimpeiros e madeireiros. A madeireira Perachi é citada como a campeã em invasões, seguida das empresas Maginco e Bannacch, todas dedicadas à exploração de mogno. Os sete casos de estupro apontados no relatório são, segundo o CIMI, uma ponta de iceberg. A entidade afirma que há muitos outros casos, cujas vítimas se recusam a fazer a denúncia por medo de represálias. Este seria o caso, segundo o relatório, de várias índias estupradas em Rio Negro (AM) por soldados do 5o. Batalhão Especial de Fronteira. O relatório do CIMI aponta ainda um outro tipo de violência. Em 1992, 87 índios morreram de malária, 64 morreram de sarampo e 14 morreram de cólera. A entidade reconhece que os dados não são completos. A FUNAI (Fundação Nacional do Índio) registrou no ano passado 108 mil casos de doenças entre os índios. O presidente do CIMI, dom Apparecido José Dias, afirmou que a questão da demarcação das terras indígenas é a principal fonte de violência. Ele observou que, pela Constituição, o governo brasileiro deverá demarcar todas as áreas até o dia cinco de outubro. Das 510 áreas indígenas no Brasil, 264 ainda não estão demarcadas e 84% delas foram invadidas (FSP) (JC) (JB).