A fome e o desemprego estão obrigando meninos e meninas de quatro anos de idade a trabalhar mais de 10 horas por dia como bóias-frias na colheita do algodão no Município de Querência (PR). Eles são chamados de "órfãos da colheita" pelos demais bóias-frias, trabalham sem seguro e garantias trabalhistas e vivem pendurados nas carrocerias abertas dos caminhões. Segundo a Federação dos Trabalhadores Rurais da Querência do Norte, cerca de quatro mil crianças dos municípios de Querência do Norte, Porto Rico, Santa Cruz do Monte Castelo e Santa Isabel do Ivaí são obrigadas a trabalhar desde os quatro anos para aumentar o rendimento familiar. "Eles andam apertados em caminhões, sem nenhuma segurança, conduzidos por motoristas sem carteira de habilitação e, às vezes, trabalham mais que os próprios adultos", disse o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura de Querência do Norte, Antônio Noberto Possi. Ele acusa os produtores agrícolas de descumprir o acordo coletivo de trabalho que prevê o transporte das crianças e de outros bóias-frias em ônibus. As estatísticas do sindicato coincidem com o levantamento da Prefeitura de Santa Cruz de Monte Castelo. Segundo o prefeito da cidade, Blaudeci Sobral (PMDB), 80% dos 10 mil habitantes do município tornaram-se bóias-frias. E 15% desse percentual é formado por crianças, disse. Para o prefeito, a fome insustentável foi ocasionada pela substituição da cultura do café pela pecuária, em meados da década passada. Os "órfãos da colheita" são reunidos pelos chamados "gatos", empreiteiros encarregados de contratar bóias-frias. Os "gatos" recebem 10% de comissão de cada menino-- que ganha por dia, em média, Cr$20 mil pela colheita de 30 quilos de algodão. Para os pais das crianças, a ajuda de seus filhos representa um pouco menos de miséria para a família. "A gente ganha muito pouco, Cr$60 mil por dia e só trabalhamos 20 dias por mês, daí a necessidade da ajuda dos filhos", afirmou o agricultor Lorival Esmério, pai de Jeferson Esmério, de oito anos, que trabalha na colheita de algodão desde os seis anos (FSP).