O processo de formação do MERCOSUL pegou a Argentina em um momento delicado. Há uma coincidência histórica. Lá, o empresariado vive transformações profundas em função da abertura da economia. Ao mesmo tempo, sofre com os altos déficits na balança comercial-- não só nas relações com o Brasil mas também com os EUA. O país tem que reestruturar sua economia e reavaliar a participação no mercado externo, consertando as falhas atuais. Esse é um dos aspectos observados pela cientista política Monica Hirst no contexto do MERCOSUL. Hirst coordena, na Argentina, o programa de Relações Internacionais da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLASCO). Ela pesquisa-- por encomenda do Itamaraty, em conjunto com o Instituto de Planejamento Econômico Aplicado (IPEA) e com o Projeto das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)-- os impactos do MERCOSUL sobre o empresariado argentino. Sobre as relações com o Brasil, a pesquisadora lembra que sempre houve, entre os dois países, uma história de conflito, de competição-- o que torna a aliança difícil não só em termos práticos mas também no campo subjetivo das relações sociais. Apesar da tendência de internacionalização da economia, a mídia argentina, por exemplo, vem acirrando os ânimos locais contra a chegada do capital estrangeiro. A agressividade e o dinamismo do movimento de exportações brasileiras são vistos com admiração pelos argentinos. Estes, no entanto, sentem ameaçado o frágil equilíbrio interno, alcançado com o último plano econômico. Há imensas diferenças entre as políticas macroeconômicas do Brasil e da
72534 Argentina-- onde agora sequer se discute se o desenvolvimento industrial é
72534 prioridade ou não, explica. No processo de integração, Hirst estabelece diferenças no impacto sofrido pelas diversas escalas empresariais na Argentina. Há setores, como o de papel, que estão desaparecendo. E outros, como o alimentício, o automobilístico, o petroquímico e o siderúrgico, que participam de tudo com bastante interesse. Na sua percepção, pequenas e médias empresas são as que sofrem mais. Não têm, na maioria dos casos, como resistir à realidade mais competitiva do bloco. A criação de áreas de especialização em bens de capital, máquinas, ferramentas e alimentos processados é uma das saídas encontradas. As multinacionais, por sua vez, alteram o rumo dos investimentos em função da ampliação de mercado representada pelo bloco. Enquanto isso, os grandes grupos nacionais buscam associações com os novos parceiros e levam a sério o processo de privatização. Associar-se ao Brasil e tratá-lo como um mercado natural é uma opção de desenvolvimento para a Argentina que, de outra forma, tem no modelo chileno de "desindustrialização" uma outra opção. Outra vantagem da aliança seria o fortalecimento do país nas negociações externas. "O MERCOSUL é um projeto fundamental para os dois países. Uma necessidade histórica. Tem, portanto, que dar certo. O que falta para isso são políticas macroeconômicas que acompanhem a evolução comercial", conclui Hirst (JB).