Depois de uma negociação que durou 20 anos, o Brasil e Bolívia assinaram ontem, em Cochabamba, o acordo do gás. Assinado na presença dos presidentes Itamar Franco e Jaime Paz Zamora, o contrato prevê o fornecimento de oito milhões de metros cúbicos de gás, no primeiro ano, e o dobro deste volume, no final da década. Na assinatura do contrato, Itamar fez um discurso político no qual conclamou os "atores sociais" que no passado permitiram que o país atravessasse "uma grave circunstância política" para que, agora, contribuam para a construção da democracia plena e da retomada do crescimento econômico. O presidente afirmou também que a crise social poderá dividir gravemente o país nos próximos dois anos e criticou as elites que, segundo ele, não se preocupam em resolver essa situação. Itamar voltou a cobrar o apoio das forças políticas que o levaram ao Palácio do Planalto para a manutenção da governabilidade do país. A partir de hoje, os governos dos dois países têm prazo de 10 meses para buscar financiamento internacional destinado à construção de um gasoduto de 2,2 mil km de extensão, que unirá o município boliviano de Río Grande a Curitiba, no Paraná. O contrato, válido por 20 anos, estabelece que a PETROBRÁS vai adquirir da estatal boliviana Yacimientos Petrolíferos Fiscales de Bolívia (YPFB) o volume inicial de oito milhões de metros cúbicos diários, a partir de 1996. O Brasil pagará pelo gás boliviano US$0,90 por milhão de BTU, na boca do poço. Com o negócio, a Bolívia espera elevar a receita com as exportações para o Brasil dos atuais US$25 milhões anuais para US$100 milhões. No trecho brasileiro, de 1,42 mil km, a construção do gasoduto deverá demandar investimentos próximos a US$1,7 bilhão. O Banco Mundial (BIRD) já anunciou que poderá financiar a obra, mas exige que a PETROBRÁS fique fora da coordenação do projeto. A estatal, porém, detém o monopólio de venda de combustíveis. Técnicos do governo paulista buscam alternativas para tocar a obra. "A obra executada por empresas privadas é mais rápida e eficiente", disse um assessor do governador Luiz Antônio Fleury. Segundo ele, há a possibilidade de o gasoduto ser arrendado à PETROBRÁS (O ESP) (GM) (FSP).