A ELEIÇÃO DO PRESIDENTE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

A dois dias da eleição da Presidência da Câmara, o deputado Inocêncio de Oliveira (PFL-PE) continua favorito, mas o adversário, Odacir Klein (PMDB-RS), está tentando complicar a disputa na reta final. Klein tem explorado as divisões internas dos grupos que apóiam Inocêncio, e afirma que ganhará a eleição com uma margem de até 20 votos. Inocêncio tem interesse em manter até o dia da eleição o clima de que a disputa já está decidida a seu favor. Klein quer desmanchar entre os deputados o clima de "já ganhou" do seu adversário. Esta eleição para a Presidência da Câmara é mais importante do que as anteriores, porque quem vencer será também o vice-presidente da República nos próximos dois anos-- uma consequência da posse de Itamar Franco na Presidência da República. Se Itamar renunciar ou morrer, o presidente da Câmara toma posse e tem um mês para presidir no Congresso Nacional uma eleição indireta do novo presidente. A disputa entre os dois candidatos só começou nas três últimas semanas. Inocêncio faz campanha há quatro anos, enquanto Klein começou a trabalhar em janeiro. Inocêncio tem a seu favor o conhecimento íntimo que tem de todos os deputados, a quem chama indistintamente de "meu grande amigo". Contra ele, no entanto, pesam acusações de clientelismo, justamente por usar o cargo de primeiro-secretário, que ocupa atualmente, para prestar favores aos deputados. A maior dificuldade de Klein é o fato de ser pouco conhecido entre os deputados. Ele foi líder do PMDB no início dos anos 80, mas depois ficou duas legislaturas fora da Câmara. Klein tenta dar um caráter ideológico para a campanha, procurando vender sua imagem de político sempre ligado às causas "democráticas", como anistia, diretas-já e Impeachment". Com isso, ele quer se contrapor a Inocêncio, que iniciou sua carreira sob os governos militares. Na guerra de números, Klein procura desmistificar a idéia de que Inocêncio tem 380 votos dos 503 possíveis. Klein diz ter hoje cerca de 235 deputados que votariam nele. Os dois blocos partidários que apóiam Inocêncio somam 270 votos-- são necessários 252 votos para ganhar a eleição. O orçamento da Câmara previsto para este ano é de US$245 milhões. O deputado Inocêncio de Oliveira apresentou 448 projetos em 18 anos de mandato, mas apenas um foi transformado em lei. Propõe a criação de um colégio em Sertânia (PE). O mais polêmico dos projetos determina a esterilização de tarados sexuais. O clientelismo e a atitude paternalista do deputado, características que teriam construído o favoritismo da sua candidatura, estão presentes nos projetos. A sua atuação parlamentar está marcada por propostas de isenções fiscais, moratórias, concessões de benefícios a servidores públicos e incentivos ao Nordeste. Na direção da Câmara, propôs a aprovação do maior "trem da alegria" dos últimos anos e aumentous salariais fartos para os servidores. O deputado Odacir Klein procura construir a imagem de um candidato ideológico, em oposição à suposta prática clientelista de seu adversário. Durante os seus três mandatos parlamentares, no entanto, ele também incorreu nas práticas políticas que condena. Klein emprega em seu gabinete uma cunhada, negociou cargos no governo na época da Aliança Democrática (1984/85) e, por duas vezes, tentou aprovar um projeto que o beneficiaria como deputado. A cunhada é Elenita Londero-- irmã de sua mulher. Ela recebe um salário mensal de cerca de Cr$10 milhões. Só sai do gabinete quando Klein sair. O projeto em que tentou legislar em causa própria propunha a contagem do tempo de mandatos eletivos-- vereadores, deputados, prefeitos, governadores etc.-- para efeito de aposentadoria. Apresentado duas vezes, o projeto jamais foi aprovado (FSP).