Ao assumir ontem a presidência dos EUA, Bill Clinton, 46 anos, convocou os norte-americanos para uma "fase de renovação" do país e definiu a política externa de seu governo. "Quando nossos interesses vitais forem desafiados, vamos agir-- através da diplomacia pacífica, se possível; com a força, se necessário", disse no discurso de posse. Misturou populismo ("vamos devolver esta capital ao povo a que pertence") com apelos altruístas (três vezes alertou seus concidadãos de que "sacrifícios" serão necessários nos próximos quatro anos). Mas terminou com um tom geral de otimismo: "Não há nada de errado com a América que não possa ser curado com o que ela tem de certo". Ao pedir a "renovação" dos EUA, Clinton afirmou: "Herdamos uma economia que ainda é a mais forte do mundo, mas está enfraquecida por fracassos empresariais, salários estagnados, iniquidades crescentes e profundas divisões entre nosso próprio povo". No mesmo dia da posse, o Departamento de Comércio dos EUA impôs uma sobretaxa "antidumping" de 142% para a importação de barras de aço ao chumbo (liga de aço leve com chumbo) vendidas pelo Brasil. As empresas brasileiras atingidas pela medida são a Mannesmann, Aços Villares e ACESITA. Como direito compensatório, o governo norte-americano ainda criou sobretaxas específicas para as exportações de barras de aço ao chumbo da ACESITA (19,19%), Mannesmann e outros fabricantes (0,67%). A taxa antidumping não significa que o preço do produto será onerado em 142%, mas apenas que a taxa normal de importação sofrerá esse acréscimo (uma taxa de 5%, por exemplo, passará para 12,1%). A decisão do Departamento de Comércio inclui mais de uma dezena de países exportadores. O governo de Bill Clinton, "traz uma perspectiva encorajadora para as relações bilaterais, apesar dos problemas que o Brasil em enfrentando em matéria de taxações sobre produtos siderúrgicos e ameaças no campo da propriedade intelectual". É o que acha o Itamaraty. O embaixador brasileiro em Washington, Rubens Ricúpero, disse ontem que ainda é difícil prever o que acontecerá no campo do comércio, porque o novo representante comercial da Casa Branca, Mickey Kantor, que deverá tratar da questão das patentes farmacêuticas, é um advogado sem nenhuma experiência em comércio internacional. Mas a escolha poderá favorecer o Brasil, dependendo de como se comportar o novo Congresso norte-americano, em sua maioria democrata, mas com uma taxa de renovação, nas últimas eleições, muito grande (123 novos membros). Os novos congressistas tenderão a ser mais cautelosos em matéria de comércio internacional, porque chegam ao Parlamento sem muita experiência na área, analisa Ricúpero. O Congresso dos EUA tem um papel fundamental na política comercial norte-americana: legisla e autoriza o presidente a adotar ações em relação aos parceiros internacionais. Outro dado positivo é que, como salienta o embaixador brasileiro, "os EUA são a primeira economia industrializada a sair da recessão" e poderão crescer, já neste ano, a uma taxa de 3%, um indicador de que as exportações também aumentarão e, portanto, as pressões protecionistas tenderiam a ficar mais contidas (O ESP) (FSP) (GM).