Segundo o educador de rua e pedagogo Carlos Bezerra, do Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde Social (IBIS), a indiferença trágica da população faz com que dos 411 inquéritos de assassinatos de crianças no Grande Rio em 1992, nenhum tenha sido apurado. "A população não está vendo os meninos de rua como seres humanos. Faz uma divisão entre pivetes e crianças", afirmou. Bezerra diz que a hostilidade, em parte, pode vir do fato destas crianças "não serem pobres bonzinhos, já que estão na rua e precisam roubar para comer, porque ninguém vai morrer de fome na calçada ou comer pedra". A pedagoga Eliane Rocha Oliveira, autora de tese sobre meninos de rua em instituições, nota a tendência crescente para a atitude agressiva da população: "Está na rua, é bandido, vou matar. Precisamos ver que a sociedade produz há 500 anos estes problemas, esta violência, esta exclusão. São menonos abandonados, fruto de famílias desintegradas". É uma convivência difícil, marcada quase sempre por hostilidade, medo e preconceito. As casas abertas de atendimento à criança de rua-- substitutas modernas dos antigos SAM (Serviço de Assistência ao Menor), FUNABEM e FEENs, internatos que eram verdadeiras escolas de formação de marginais-- ainda estão procurando meios e fórmulas para serem aceitas pelas comunidades. Essas casas tentam, em regime aberto, tirar os menores da rua, reconduzi-los a seus pais, dar-lhes documentos e educação e dirigi-los para centros profissionalizantes. Mas passam a ser acusadas, pela vizinhança, de serem fonte e abrigo de delito ou violência cometido por qualquer das cercas de duas mil crianças que perambulam sem teto pelas ruas do Rio de Janeiro. Casas abertas de acolhida, onde as crianças entram e saem livremente, não aceitam como clientes crianças e adolescentes infratores, que são encaminhados ao Juizado de Menores. Isto não impede, porém, que elas sejam vistas como se fossem centros de formação de bandidos por moradores e comerciantes que vivem próximo. Uma dessas casas, que está sendo construída pela prefeitura do Rio na Rua das Laranjeiras (zona sul da cidade), já provocou protestos da Associação de Moradores, que acha que vão aumentar os assaltos na área (JB).