O INDUSTRIAL E ARMADOR PAULO FERRAZ SUICIDOU-SE ONTEM COM UM TIRO

O industrial e armador Paulo Ferraz suicidou-se ontem com um tiro contra o peito, no seu escritório do centro da cidade do Rio de Janeiro. O fato teve, segundo a imprensa, grande repercussão nos meios navais, agravando a crise que envolve as contas dos armadores pendentes de inquérito na Superintendência Nacional da Marinha Mercante (SUNAMAM). O estaleiro Mauá, do qual Paulo Ferraz era presidente, é um dos maiores devedores. A Companhia Comércio e Navegação (estaleiro Mauá), principal empresa do grupo Paulo Ferraz, é responsável por US$300 milhões da dívida de US$580 milhões que os bancos estão cobrando da SUNAMAM, alegando que ela funcionou como avalista. Mas, ao colocar seus bens à disposição do governo tentando uma saída para evitar a falência do estaleiro, Paulo Ferraz avaliou seu patrimônio em US$200 milhões. A situação agravou-se quando o ministro dos Transportes, Cloraldino Severo, afirmou que o governo examinaria com prudência a proposta de Paulo Ferraz, procedendo a uma avaliação dos bens, para certificar-se de que sobre eles não pesariam outros ônus. Além da dívida do estaleiro, Paulo Ferraz enfrentava dificuldades como armador. Suas empresas, a Companhia Brasileira de Transportes de Granéis e a Empresa de Navegação Mercantil S/A, estão entre as mais atingidas pela redução no frete de importação de granéis sólidos, como o carvão e o trigo. Construção naval, transporte marítimo, navipeças, reparo naval, operações "off-shore" de apoio às plataformas de petróleo, agropecuária, salinas e mercado imobiliário-- eis algumas áreas de investimento do Grupo Paulo Ferraz. Ele próprio estimou em Cr$100 bilhões o faturamento de suas empresas, em 1983, onde trabalhavam cerca de 6 mil pessoas. Mas, conforme a imprensa, o relatório de acompanhamento da construção naval, elaborado pelo Conselho Diretor do Fundo de Marinha Mercante, revela que, no primeiro semestre de 1984, o estaleiro Mauá se apresentava com o maior número de embarcações em atraso-- oito-- embora estivesse recebendo a maior parcela na liberação de recursos para a construção naval-- Cr$38,87 bilhões-- no mesmo período. O estaleiro Mauá foi um dos principais beneficiados com o 2o. Programa de Construção Naval, lançado pelo presidente Ernesto Geisel, que previa investimento inicial de US$3,3 bilhões. Mas, em cruzeiros, tal programa naval, que começou com cerca de Cr$25 bilhões, consumiu aproxidamente Cr$11,5 trilhões e, embora devesse estar concluído até 1979, arrasta-se até agora (JB) (FSP).