O presidente da República João Figueiredo, a convite da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), visitou as cidades de Petrolina e Juazeiro, ambas em Pernambuco. E a empresa estatal não poupou esforços para mostrar a riqueza da região: ofereceu a Figueiredo e a 600 convidados especiais um churrasco preparado com 300 quilos de carne, trazidos de avião da Argentina (segundo leis brasileiras, a carne trazida ao país fora dos acordos internacionais de importação, deve ser imediatamente apreendida e inutilizada; esta, no caso, não sofreu restrição, pois foi servida no banquete oferecido ao chefe da Nação). O presidente foi ao nordeste apenas para participar de uma solenidade no Centro de Pesquisa do Trópico Semi-Árido, que durou cerca de 20 minutos, tempo suficiente para a entrega de prêmios oferecidos pela EMBRAPA a quatro cientistas e a três jornalistas. O churrasco, segundo informações da imprensa, foi uma surpresa imaginada pelos dirigentes da estatal. Os convidados vieram de todo o país. Até o cozinheiro era de fora, especialmente contratado no Rio Grande do Sul. Parte dos convidados chegou a Petrolina com dois dias de antecedência, num "Boeing" (turbo jato, que gasta normalmente 36000 mil libras de combustível) especialmente fretado. Os convidados ilustres não tiveram problema de qualquer espécie. A EMBRAPA reservou-lhes todos os apartamentos dos dois hotéis de três estrelas da região, o Grande Rio e o Grande Hotel de Juazeiro. Os menos graduados, apesar dos protestos (de acordo com a imprensa), tiveram de se contentar com acomadações mais modestas, em duas pousadas, também reservadas previamente. Para compensar o transtorno da falta de hotéis de luxo nessa área do sertão, a EMBRAPA pagou todas as despesas dos hóspedes durante dois dias de permanência nas cidades, incluindo as bebidas. Bastava a assinatura do visitante na nota e ela era automaticamente debitada na conta da empresa estatal. Só o vinho não era importado, mas foi o da melhor marca nacional. Enfim, nesta região duramente castigada pela seca, a população que está acostumada a comer calango (rato do mato), assistiu por dois dias, o presidente da República, sua comitiva e 600 convidados comerem 300 quilos de picanha argentina (dados do JB e do O ESP).