O acidente ocorrido no dia 08 de outubro na Central Nuclear de Angra I, em Angra dos Reis (RJ), foi escamoteado. Tratou-se de algo muito mais grave e perigoso do que o divulgado, tres dias depois, pela diretoria de FURNAS, que só falou em um simples e inicial incidente hidraulico. O presidente de FURNAS, Licinio Seabra, convocou a imprensa no dia 11 de outubro e, assessorado pela diretoria e por tecnicos da empresa, descreveu em minucia a ocorrencia causadora daquela enesima paralisação da usina, que até hoje não conseguiu funcionar como devia. Mas Seabra não contou o principal: um erro de operação, na hora de contornar aquele Incidente" hidraulico, provocou um acidente nuclear cujas consequencias poderiam ser tão dramaticas quanto as de Three Mile Island II, na Pensilvania, se a falha não fosse corrigida a tempo, e se Angra I não estivesse operando com apenas 2% de sua capacidade. (Three Mile Island, alias, estava desligada quando o acidente, em maio de 1979, obrigou a evacuação dos arredores e a interdição de suas instalações, situação essa que persiste até hoje). A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) ja comunicou detalhadamente o acidente à sua congenere norte-americana, a Nuclear Regulatory Commission. Porem, delegou a FURNAS a incumbencia de divulga-lo internamente. Explicou que um manometro (medidor de pressão) havia escapado de uma tubulação, deixando um buraco de tres quartos de polegada de cano, por onde o vapor passou a vazar para o interior do vaso de contenção-- a caixa-forte dentro da qual funciona o reator nuclear. Isso não era grave, segundo ele, pois se tratava de vapor do chamado "circuito secundario", cuja agua apenas tira o calor do "circuito primario", mas sem se contaminar, pois não entra em contato com a agua radiativa. O que Seabra escondeu foi o erro de operação ocorrido depois. Desligado o circuito secundario que vazava, era preciso ligar um outro sistema alternativo para tirar calor do primario. Alem das duas valvulas dessa "bomba de remoção de calor residual"-- usada sempre que se desliga a usina--, um dos quatro tecnicos que se encontravam na sala de controle acionou tambem um outro botão, abrindo a canalização que liga a bomba de remoção de calor residual ao tanque de armazenamento da agua borada (que se injeta no reator para "matar" a reação nuclear). Como a agua do tanque é guardada sob pressão normal, atmosferica, e a que circula dentro do circuito do primario suporta pressões de até duas mil libras por polegada quadrada, o sistema passou a ser drenado, com sua agua sendo expulsa, pela pressão interna, para o tanque despressurizado. Ao perceber no painel a brusca queda de pressão e de volume da agua no sistema primario, os operadores deram, rapidamente, contra-ordem para os computadores, tentando fechar todas as valvulas que haviam aberto. Programados para obedecer, os computadores, primeiro, terminaram de abrir para, só depois, fechar as valvulas. Nesses dois minutos, quatro mil galoes da agua do reator haviam sido expulsos para o tanque. E foi acionado um terceiro sistema, o da "bomba de injeção de segurança", para reinjetar, no reator, aqueles quatro mil galoes jogados no tanque (Revista Senhor).