O Brasil deixou de ser a "Belíndia", expressão criada pelo economista Edmar Bacha para designar as desigualdades sociais do país. Quando havia crescimento econômico, a porção Bélgica sustentava o lado Índia. Mas, com o aumento da concentração de renda nos anos 80 e a recessão nos 90, o país se tornou campeão do mundo em disparidades. Hoje, há 45 milhões de brasileiros-- ou 11 milhões de famílias--abaixo da linha de pobreza. Ou seja, um terço da população tenta sobreviver com renda de até 1/4 do salário-mínimo. Em todos os estados, as ruas são tomadas por miseráveis. A miséria não é mais uma condição típica das áreas rurais. De cada 10 brasileiros pobres, cinco moram em cidades. É nas aglomerações urbanas que, segundo Bacha, começam a eclodir os sintomas de uma perigosa desintegração social. Os ricos são potencializados por uma inflação de três dígitos. O Brasil ostenta o triste título de campeão mundial de concentração de renda. Dados do BIRD (Banco Mundial) mostram que os 20% mais ricos ganham 26 vezes mais do que os 20% mais pobres. Em 81, 23% da população com algum rendimento (incluindo camelôs e outras atividades da economia paralela) ganhavam até um salário-mínimo. Em 90 este contingente já tinha pulado para 34%. Os resultados são de uma pesquisa do economista Régis Bonelli, do IPEA. Outra conclusão: quanto mais inflação, mais injusta é a distribuição de renda. Em 89, ano da maior inflação da história, foi também o ano da maior concentração de renda. O relatório sobre a situação alimentar e nutricional do Brasil, levado pelo governo à primeira Conferência Internacional sobre Nutrição, organizada pela FAO e OMS e realizada há duas semanas em Roma, é inequívoco: -- As condições de vida de 67% dos brasileiros não atingem os níveis mínimos de consumo alimentar recomendados pela FAO/OMS, de 2.400 calorias/dia, provocando alguns índices de desnutrição, nanismo e mortalidade infantil. -- O índice de mortalidade infantil-- 64 óbitos por mil nascimentos-- só é inferior, na América Latina, aos de Honduras e Bolívia. -- Dos 58,6 milhões de crianças e adolescentes (0 a 17 anos), que representam cerca de 41% da população, 30% vivem na pobreza absoluta. -- 75 milhões de pessoas (71% da população) vivem na zona urbana sem esgoto sanitário; 13 milhões não têm água potável; 34 milhões não têm coleta de lixo. -- No meio rural, 17 milhões (44% da população rural) não têm água de boa qualidade. -- Com isso, 65% das internações hospitalares no país são determinadas por falta de saneamento. -- Em 89, quase 31% das crianças de 0 a 5 anos tinha algum tipo de desnutrição (JB).