A margem de lucro no Brasil é comparativamente mais alta do que em outros países. A diferença representa a transferência para o consumidor da conta dos subsídios concedidos para a instalação do parque industrial no início da década de 70. Segundo estudo da Fundamental Research, empresa de consultoria especializada na análise do desempenho das companhias brasileiras, a margem de lucro no Brasil situava-se em 30% das vendas em 89. No ano seguinte, o índice manteve-se estável, encerrando o exercício em 29%. Mas, em 91, com o início do processo recessivo, a margem de lucro caiu para 22% e deve encerrar 92 na casa dos 23%, na ponta da indústria. No comércio, a margem de lucro, em alguns casos, chega a 200%. Nos EUA, a margem de lucro situa-se entre 10% e 15%, dependendo do setor econômico analisado. O modelo industrial japonês, por sua vez, só comporta margens inferiores a 10%. A origem das diferenças é a prática adotada no início da industrialização de manufaturados do país, no começo dos anos 70. "Todos os financiamentos eram subsidiados", lembra Márcio Orlandi, presidente da Fundamental Research. Isso quer dizer que a despesa financeira que custava 1 mil, refletia na verdade 200". Desta forma, quem recebeu financiamento barato para construir sua fábrica podia oferecer preços subavaliados para o consumidor da época, ao invés de distribuir riqueza através de salários, ações, ou outro ativo qualquer. A partir de 1982, o Brasil entrou em crise e percebeu que não poderia mais pagar sua dívida externa de, na época, US$80 bilhões, dinheiro que serviu para bancar grande parte do subsídio concedido. "Foi a partir deste momento que começaram as distorções no sistema de preços relativos da economia brasileira", explica Orlandi. "O erro maior foi que o subsídio concedido chegou ao bolso do consumidor na forma de preço, mas muita gente enriqueceu indevidamente". Criou, ainda, o sistema cartorial do capitalismo brasileiro que existe até hoje (JB).