CONFLITOS AMEAÇAM ÚLTIMA TRIBO NÔMADE

Índios e civilizados do Maranhão travam uma batalha típica dos tempos de colonização do Brasil. Três índios e dois brancos já morreram nas escaramuças por disputa de terras neste ano. Os confrontos põem em risco a última tribo nômade conhecida no Brasil-- os guajás-- e acirram o ânimo dos guajajaras. Os 168 índios guajás que já foram contados pela FUNAI e outros 100 que ainda vivem na floresta mostram um primitivismo pré-histórico. Os guajás, que se autodenominam de awás ("gente", em tupi-guarani), andam nus, ignoram a agricultura, não têm adorno ou cerâmica, dividem-se em pequenos grupos para a caça e coleta de frutos. Praticam a poligamia e, às vezes, o incesto. Apresentam uma extrema intimidade com a natureza: os filhotes de macacos, veados e porcos-do-mato são amamentados com o leite das índias. O Exército, em convênio com a FUNAI, deverá demarcar em 93 a reserva Awá-Guajá (118 mil hectares) para os 100 índios arredios não- contados. A 700 km ao sul de São Luís, a tribo do guajajaras sofre discriminações por querer retirar da reserva o povoado de São Pedro dos Cacetes. Em Barra do Corda e Grajaús, cidades fronteiriças à reserva, foram planejados levantes contra os índios, que se armaram, obstruíram a rodovia BR-226 e sequestraram passageiros e ônibus. O repúdio aos guajajaras é apoiado pelos padres capuchinhos da região. Na igreja matriz de Barra do Corda, constam as imagens de sete padres e cinco freiras chacinados, em 1901, em Alto Alegre (MA). O massacre ocorreu depois que os padres torturaram um índio flagrado em poligamia. Segundo a PF, os guajajaras são responsáveis por transformar o estado no segundo maior produtor de maconha do país, depois de Pernambuco. São abençoados pelos religiosos do CIMI. "Evangelizar hoje é respeitar a cultura dos índios", diz o padre italiano Carlo Ubialli, do CIMI (FSP).