MODELO ECONÔMICO DE 30 ANOS CRIOU QUADRO DE MISÉRIA

A miséria absoluta já atinge grande parte da população brasileira; um exército de pessoas mora nas ruas e já perdeu as referências do que seja civilização. No Nordeste, a falta de comida cria um novo tipo de homem, mais frágil e quase "humanóide". Estas constatações levaram sociólogos, economistas e empresários a analisar o problema da pobreza no país, que ameaça a estabilidade das grandes cidades. O professor de economia da FGV, Antônio Maria da Silveira, culpa a ditadura militar pela crise social que atinge o país. Ele frisou que nos últimos 30 anos, buscou-se o "Brasil potência", através de benefícios a setores da economia que utilizam intensivamente bens de capital e mão-de- obra qualificada. Isto alijou milhares de pessoas do mercado de trabalho e esmagou os salários. Os investimentos nacionais que deveriam favorecer as populações humildes foram, como destaca o professor da FGV, desviados para a produção de carros de luxo e sonhos "mirabolantes". Antônio Maria explica que os conceitos de esquerda e direita não importam mais. "O importante é criar um Brasil Humanidade, que atenda os mais carentes", diz. O coordenador do PNBE, Alfredo Laufer, também criticou o gigantismo dos projetos econômicos apresentados no país há 30 anos. Ele acha que os planos sempre criaram uma expectativa exagerada, jamais cumprida na prática. Além disso, os projetos muito ambiciosos fariam o cidadão comum sentir-se desprezível e impotente para influir nos destinos nacionais. O secretário-executivo do IBASE, sociólogo Herbert de Souza, frisa que os planos de desenvolvimento que a ditadura militar impôs ao país, a partir de 64, provocaram a maior concentração de renda da história do planeta. O processo de crescimento, para Herbert de Souza, perverteu as relações sociais por seu caráter excludente: a economia jamais preocupou-se com a pobreza. "A ditadura potencializou as diferenças e fez a riqueza de uma minoria. O que vemos hoje é a conivência conflituosa entre uma sociedade dita "oficial" e a maioria, marginal", diz. Segundo ele, 11 milhões de brasileiros encontram-se em estado de pobreza e outros 47 milhões são completamente indigentes. O sociólogo se mostra otimista para 1993. Herbert de Souza acredita que a condenação de Fernando Collor dará a Itamar Franco e sua equipe condições de efetuar grandes transformações na situação de miséria da população. "Creio que nem as elites serão capazes de conter o avanço que hoje se observa nos movimentos populares. Ou os empresários param se sequestrar a sociedade ou acabarão sendo sequestrados pela miséria que muitos ajudaram a criar", conclui. O economista Carlos Alberto Cosenza, da UFRJ, caracterizou os últimos 30 anos como um período em que a economia arrasou a sociedade brasileira. Consenza destacou a reduzida participação da massa salarial na renda do país como um dos maiores exemplos de destruição da capacidade social do Estado. "Se, ante, o salário era responsável por 70% da renda nacional enquanto o capital ficava com 30%, o normal nos países desenvolvidos, atualmente esta relação se inverteu, ficando em 25% contra 75%", informa o economista. Cosenza aponta o retorno do Estado à produção e o planejamento nacional como a solução do problema da miséria. Ele receita investimentos de retorno rápido para aliviar pressões inflacionárias, em setores como agroindústria, armazenagem e transporte. Isto sustentará projetos mais longos", diz (JC).