Nos últimos 30 anos, os nordestinos viram aumentada sua esperança de vida, reduziram as taxas de analfabetismo e até triplicaram a renda per capita. Contudo, não conseguiram evitar que o Nordeste permanecesse como um dos mais dramáticos bolsões de miséria do país. Na região, mais de nove milhões de pessoas com idade superior a 10 anos e algum tipo de rendimento sobrevivem abaixo do nível de probreza. Isso significa dizer que essas pessoas têm rendimentos que não chegam a 80% do salário-mínimo. Elas não são poucas. Se reunidas, equivalem à população de um estado como o Rio Grande do Sul, ou um país como a Suécia. Quem chegou a esses números foi o professor e economista Maurício Costa Romão, autor de uma tese defendida nos EUA sobre a pobreza e renda no Brasil, utilizando estatísticas oficiais e critérios internacionalmente adotados. Na última década, a incidência da pobreza na população aumentou quase 20%. Na verdade, os nove milhões de trabalhadores com rendimentos positivos camuflam uma realidade bem mais dura no Nordeste. "Provavelmente, o número de pobres da região é superior a 25 milhões", afirma o economista. A pobreza no Nordeste é visível em todos os lugares, desde as áreas urbanas de cidades como Fortaleza (CE) e Recife (PE), até a verde região canavieira, ou o seco sertão. No Ceará, um estudo realizado pelo Banco do Nordeste do Brasil mostra que a renda per capita caiu 18% em Fortaleza, nos últimos 20 anos. No Recife há cerca de 600 mil trabalhadores à margem do mercado. Para se ter uma idéia do que isso representa, basta citar a população da capital: 1,3 milhão de habitantes. Destes, pelo menos cinco mil pais de família são trapeiros. Isso indica que pelo menos 150 mil pessoas sobrevivem de restos atirados ao lixo. A estiagem agrava a situação no campo. Na área rural, a situação também não é fácil. Dos 1,67 milhão de km2 que formam a Região Nordeste, 80% ficam no semi-árido, onde residem quase 17 milhões de pessoas. Um verão mais prolongado já é suficiente para provocar grandes estragos. Este ano, por exemplo, há 803 municípios atingidos pela estiagem, que devorou 70% da safra nordestina. Com a destruição das colheitas, a fome se alastra, já que a maior parte dos agricultores é pobre e cultiva lavouras de subsistência, que só lhes garante sustento no verão, depois de um bom inverno. A SUDENE e o Banco do Nordeste do Brasil calculam que quase 8,7 milhões de pessoas estão em áreas de estiagem. O Nordeste tem 43 milhões de habitantes (O Globo).