Todos os domingos, na Praça Padre Bento, em São Paulo (capital), dezenas de imigrantes sul-americanos oferecem-se como força de trabalho para os coreanos que mantêm oficinas de costura na cidade. As condições de trabalho pouco variam: jornada de 16 horas diárias e um cativeiro que só pára da tarde de sábado à noite de domingo. Os que conseguem emprego ganham, em geral, Cr$1.500,00 por peça, com uma produção mínima de 70 peças por dia. Mas a procura é grande. A partir das 18 horas, os primeiros imigrantes-- na maioria bolivianos em situação irregular no país-- chegam à praça e vão se agrupando nos bancos. Por volta das 21 horas, o mercado informal estabelecido na Praça Padre Bento já concentra cerca de 100 clandestinos. É nesse momento que os primeiros donos de oficinas chegam e transformam a praça numa bolsa de ofertas. Na praça, ninguém tem nome, ninguém se identifica, tamanho é o receio que todos têm da Polícia Federal. Entre os bolivianos, "o sofrimento e a semi-escravidão são encarados como um mal necessário para progredir na vida e ganhar dinheiro". A vida é difícil no começo, mas depois nos habituamos e, com a prática
52301 adquirida, ganhamos um dinheiro razoável-- diz um costureiro de 27 anos, dois deles passados no Brasil, que afirma ganhar cerca de US$200 por mês. Na Bolívia, dificilmente ganharia mais do que US$70, acrescenta. No ritual de contratação de empregados, são comuns cenas em que casais de meia idade examinam cuidadosamente jovens na faixa dos 20 anos e, depois de alguma discussão, acabam "arrematando" três ou quatro deles (O Globo).