A VISITA DE GORBACHEV

Com bom humor e diplomacia, o ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchev driblou, ontem, o primeiro incidente de sua viagem ao Brasil. Durante palestra na Faculdade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro (RJ), onde inaugurou a filial da Fundação Gorbatchev no Brasil, militantes do MR-8 exibiram cartazes acusando-o de "traidor da humanidade" e "capacho do capitalismo". Gorbatchev rebateu a acusação dizendo que "traidor da humanidade" era o imperialismo. A` tarde, diante do Hotel Glória, mais protestos: faixas e cartazes do PCB diziam "Fora Gorbatchev". Durante debate na Cândido Mendes, o ex-presidente soviético defendeu a intervenção do estado na economia em momentos de transição-- como acontece atualmente na CEI, a ex-URSS--; garantiu que os arsenais nucleares estão protegidos e não serão usados em guerras regionais; e se autodefiniu como um profeta, afirmando que era contra a dissolução da URSS por acreditar que traria a desgraça. Segundo ele, cerca de 80% da população do antigo país está em estado que beira a miséria absoluta. Ao falar para empresários no Hotel Glória, o ex-presidente soviético afirmou que o Estado ainda é necessário. Segundo ele, a transição de uma economia estatizada-- como a da antiga URSS-- para a livre iniciativa não pode ser feita espontaneamente: é preciso, ressaltou, preservar o papel regulador do Estado, para diminuir as desigualdades. Privatização, problemas do Brasil e da ex-URSS e economia de mercado foram os temas do encontro entre Gorbatchev e os sindicalistas Luiz Antônio Medeiros (Força Sindical), Jair Meneguelli (CUT) e Vicente Paulo da Silva (Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo). Medeiros disse que privatização foi o tema preponderante e que Gorbatchev foi favorável à participação dos trabalhadores no processo, que deve contar com o capital estrangeiro (O Globo) (JB).