FLERTE DA ARGENTINA COM OS EUA ABALA MERCOSUL

As relações com a Argentina estão novamente na ordem do dia do governo brasileiro. Após longo período de distensão, iniciado com os primeiros convênios do MERCOSUL e que teve seu momento culminante no acordo de cooperação a fiscalização na área nuclear, Brasília agora observa com desconfiança a desenvoltura com que os argentinos passaram a fazer concessões aos interesses dos EUA, em geral contrários aos do Brasil. No Itamaraty, trabalha-se com a informação de que a Argentina teria manifestado ao governo norte-americano seu interesse em integrar o NAFTA. E sem avisar o Brasil, quando o combinado é que os quatro países do MERCOSUL só tomem decisões conjuntas. Pelos canais adequados, a chancelaria fez chegar seu descontentamento ao governo Menem. Alguns setores da SAE e do próprio Itamaraty já consideram que as posições da diplomacia de Menem têm sido de "alinhamento quase automático" à política dos EUA. A Argentina, lembram, desmantelou inteiramente o projeto de construção de um míssil de médio alcance, denominado "Condor", para a satisfação dos norte-americanos, que também vêem com desconfiança o programa aeroespacial que o Brasil desenvolve na ilha de Alcântara (MA). Suspeitam estar ali embutido projeto de míssil semelhante. O governo brasileiro sequer cogita rever esse programa. Os argentinos também já emitiram sinais de que podem assinar o Tratado de Não-proliferação de Armas Nucleares (TNP), ao qual Brasília não pretende aderir. No Itamaraty e na SAE também não se esquece da rapidez com que o presidente Menem tratou de despachar uma fragata para a guerra do Golfo. Graças a atitudes como essas, a Argentina saiu de uma lista de países com os quais os EUA têm restrições comerciais, na qual o Brasil ainda é presença destacada. No momento, o problema é agravado porque o governo Itamar pretende intensificar e consolidar programas que os EUA, historicamente, olham com desconfiança. É o caso do programa nuclear, particularmente o de construção de um submarino nuclear da Marinha, cuja proposta foi entregue pelo almirante Mário César Flores a Itamar Franco. A área nuclear, antes dispersa, será unificada na SAE. A consolidação do programa nuclear, no entanto, não deverá reabrir a velha ferida com norte-americanos e argentinos: a retomada do projeto de construção da bomba atômica. Os acordos de fiscalização mútua firmados com o governo Menem impedem que isto ocorra, segundo técnicos da CNEN. A Argentina já fez uma inspeção em Aramar, onde a Marinha desenvolve seu programa, enquanto os brasileiros também tiveram a oportunidade de constatar que o projeto nuclear vizinho está "atrasado em relação a nós", e não reúne as condições mínimas para chegar à bomba (Relatório Reservado - no. 1.334).