Os US$4 bilhões investidos anualmente em todo o mundo, em métodos de planejamento familiar, estão sendo bem gastos. Estudo da organização especializada norte-americana Population Crisis Committee (PCC) mostra que países em desenvolvimento já têm o mesmo acesso que os do Primeiro Mundo aos meios de controle de natalidade. Mas o Brasil regrediu nesse setor. A pesquisa, que foi elaborada com base em dados recolhidos nos últimos cinco anos, chegou também a uma constatação irônica: ao mesmo tempo que mais de um terço dos 87 países em desenvolvimento avançou neste campo, EUA e Japão retrocederam. "A`s mulheres norte-americanas e japonesas, por exemplo, vem sendo negado o acesso às opções de planejamento familiar", revela o documento. O maior progresso no setor de planejamento familiar foi registrado em Botsuana, na África: este país está agora entre os que oferecem acesso aos métodos anticoncepcionais. Em contrapartida, o Brasil está, ao lado da Somália, Iraque e Jamaica, na lista dos 12 países que regrediram nesse setor. Os 124 países analisados pelo PCC foram classificados em quatro categorias, de acordo com os níveis de acesso da população aos meios de controle de natalidade: bom, razoável, mau e péssimo. O Brasil está na terceira categoria, ao lado do Haiti, Zâmbia, Paraguai, Tanzânia, Gana, Burundi, Bolívia, Uganda, Guiné-Bissau e Zaire. A Argentina é outro país latino-americano que ficou nessa faixa. A análise da classificação do PCC mostra que o problema não é financeiro, já que países mais pobres, como Cuba, Sri Lanka, El Salvador, Bangladesh e Botsuana, aparecem numa categoria melhor do que a do Brasil em matéria de planejamento familiar. A explicação para o caso brasileiro, segundo a pesquisadora Sally Ethelston, tem fundo político. "O Brasil, que na década de 70 fazia grandes progressos nessa área, vem regredindo basicamente por um motivo: falta de disposição para encarar o problema. Para nós, está claro que se trata de uma questão política", afirmou. Para Sally Ethelston, as autoridades brasileiras têm deixado o assunto de lado por causa de uma temor bastante peculiar: "Os militares se preocupavam com a questão populacional e atuaram corretamente nesse setor. Ao surgir um governo democrático, porém, o Brasil começou a andar para trás nessa área porque os políticos acharam que se mantivessem a política dos militares passariam a ser identificados com a ditadura" (O Globo).