No dia de sua padroeira, Nossa Senhora Aparecida, o Brasil perdeu um dos seus maiores políticos: o deputado federal Ulysses Guimarães (PMDB-SP), 76 anos completados no último dia seis, morreu em um acidente de helicóptero, por volta das 16h do último dia 12, no litoral fluminense, a cerca de 100 km de Angra dos Reis, onde havia passado o feriado prolongado na casa do empresário Luiz Eduardo Guinle. Com ele, viajavam sua esposa, dona Mora, o ex-senador Severo Gomes, 68 anos, e sua mulher, dona Henriqueta, além do piloto, Jorge Cometaro, 45 anos, que tinha 15 anos de profissão. Avisada sobre chuvas em São Paulo, dona Mora tentou convencer o marido a adiar a viagem. O temporal, com ventos de 90 km/h, levou o piloto a decidir evitar a serra e sobrevoar o mar. O helicóptero, modelo Esquilo de fabricação francesa, prefixo PT-HMK, pertencente à Magirus Táxi Aéreo, empresa do grupo Moinho São Jorge, de São Paulo, não é equipado para voar por instrumento. A`s 17h de ontem o Salvaero suspendeu as buscas na área do acidente, após o resgate de três corpos: o do piloto, de Severo Gomes e de dona Mora, identificados oficialmente à noite. As buscas aos outros desaparecidos serão reiniciadas hoje pela manhã. Embora ainda não esteja oficializada, a morte de Ulysses Guimarães foi pranteada por deputados e senadores em Brasília. O presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), suspendeu a sessão de hoje e cancelou a ordem do dia. O mesmo foi feito pelo presidente do Senado, Mauro Benevides (PMDB- CE). O presidente Itamar Franco recusou-se a decretar luto oficial, alegando ainda ter esperanças de "um milagre". Deputado federal no 11o. mandato, Ulysses Silveira Guimarães queria voltar à presidência do PMDB para ajudar a implantar o parlamentarismo. Derrotado nas eleições presidenciais de 1989, sonhava virar premiê. Nascido em Rio Claro (SP), elegeu-se deputado estadual em 1947 e três anos depois chegou ao Congresso Nacional. Em 1971, assumiu a presidência do MDB. Em 1973, foi anticandidato à Presidência da República, desafiando a ditadura militar do general Emílio Médici. Virou, em 1984, o "senhor Diretas" por comandar os protestos contra o Colégio Eleitoral. Depois, organizou a eleição indireta de Tancredo Neves. No governo José Sarney, esteve na Presidência 18 vezes, e foi presidente do Congresso Constituinte, responsável pela promulgação da Constituição de 1988. Neste ano, o "doutor Ulysses", como era chamado, foi um dos articuladores do afastamento do presidente Fernando Collor. Num trabalho de bastidores, Ulysses Guimarães vinha buscando aliados para sua candidatura à presidência da Câmara no próximo ano, quando ocorrerá a revisão constitucional. Mas, até lá, ele planejava liderar a campanha pelo parlamentarismo no Brasil, em meio a uma reforma eleitoral e partidária. Reuniria poderes para indicar o primeiro-ministro ou exercer ele próprio a função. Com o Impeachment" do presidente Collor, Ulysses voltou a recuperar espaço. Seu auge de poder ocorreu na "Nova República" quando exercia a presidência do Congresso Constituinte, do PMDB e substituía José Sarney no Palácio do Planalto. Mas seu poder foi-se diluindo depois do governo Sarney, voltando ao centro das negociações com a discussão do Impeachment". Ulysses não deixa inimigos. Em conversas com amigos dizia que gostaria de ser lembrado pela frase que disse no ato de promulgação da Constituição de 1988: "Tenho ódio à ditadura. Ódio e nojo". O empresário Antônio Severo Fagundes Gomes-- dono da Tecelagem Parahyba-- despontou na política como partidário do regime militar-- foi ministro da Indústria e Comércio do presidente Ernesto Geisel-- e dele se afastou para integrar a oposição. Considerado um "nacionalista", Severo Gomes filiou-se em 1979 ao PMDB, e por esse partido elegeu-se senador por São Paulo nas eleições de 1982. Ao terminar seu mandato, em 1990, não disputou a reeleição mas foi chamado no ano seguinte para o governo Luiz Antônio Fleury (SP), como secretário de Ciência e Tecnologia. Acabou sendo seu último cargo público e de curta duração: saiu em junho de 1991, três meses após a posse, por não aceitar uma fraude na importação de equipamentos de Israel, feita no final da gestão de Orestes Quércia, antecessor de Fleury. Recentemente, Severo Gomes foi convidado pelo presidente Itamar Franco a ocupar a presidência da PETROBRÁS, ou da CVRD, mas recusou (FSP) (O Globo) (JB).