ABSTENÇÃO FOI UM FENÔMENO ELEITORAL

Em São Paulo (SP), mais de 40% do eleitorado não votaram em nenhum candidato a prefeito: se abstiveram, anularam ou deixaram em branco seu voto. No Rio de Janeiro (RJ), as abstenções e os votos nulos e brancos somam mais de 37%. Em Belo Horizonte (MG), as projeções indicam comportamento semelhante de um terço do eleitorado. Em Salvador (BA), quase a metade da população não votou em ninguém. Em Recife (PE), cerca de 50% se abstiveram ou votaram nulo ou em branco. Em Fortaleza (CE), cerca de 40% do eleitorado também não votaram. Há meses o diretor do IBOPE, Carlos Augusto Montenegro, vinha prevendo essa situação. Para ele, o povo está decretando o fim do voto obrigatório. "Chamem de desobediência civil, protesto, descrédito, seja lá o que for, o povo está desmobilizado em relação a eleições e vem se recusando a votar sem vontade", disse Montenegro. A causa desse desânimo, na análise de Montenegro, está nas sucessivas decepções sofridas pelos brasileiros em relação aos políticos desde a campanha das diretas. Já o sociólogo Herbert de Souza, secretário-executivo do IBASE, acha a argumentação de Montenegro "uma grande bobagem" e aposta que, no segundo turno, essa situação vai mudar. Para ele, "as atenções estavam concentradas na Presidência da República e no Executivo Federal e tiveram muito pouco tempo para se deslocar para as campanhas municipais". Herbert de Souza ressaltou ainda que no Brasil há uma "cultura centralista que coloca o federal como importante e o municipal como secundário". Ele acredita que essa cultura vai mudar, "mas leva tempo". O sociólogo considera que o movimento pelo Impeachment" de Collor "foi uma das maiores mobilizações da história do Brasil e pregava o respeito pelas instituições. O voto é uma dessas instituições" (JB).