O massacre dos presos na Casa de Detenção é apenas o episódio mais visível e chocante da história de violência que marca os 22 anos de existência da Polícia Militar paulista. A fama de agir com truculência pode ser confirmada pelas estatísticas da própria corporação: a PM matou 1.144 pessoas de janeiro a setembro deste ano, o que equivale a uma morte a cada seis horas. Acrescidos os 111 presos oficialmente mortos no massacre da Casa de Detenção, a PM tirou a vida de uma pessoa a cada cinco horas até o último dia dois de outubro. No mesmo períoro, ainda segundo as estatísticas oficiais, 47 policiais militares morreram em serviço, nenhum deles durante a repressão à rebelião na Casa de Detenção, que começou com uma briga de presos. Criada em abril de 1970, com a fusão da Guarda Civil e da Força Pública, a PM paulista matou quase oito mil pessoas ao longo de sua história. Mais de um terço dos casos ocorreu na década atual: 585 em 1990, 1.077 em 1991 e 1.255 até o último dia dois. Considerado o batalhão mais violento da PM, as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA), cuja missão original era combater guerrilheiros de esquerda, perdeu apenas um homem de 1990 a agosto deste ano. Na Casa de Detenção vigoram leis, costumes e tradições que a fazem diferente dos outros presídios brasileiros. No meio dos sofrimentos e das péssimas condições de vida, existem momentos de diversão, religiosidade e esperança, alguns vividos em pequenos refúgios de segurança. A sobrevivência de muitos presos na chacina no Pavilhão 9 da Casa de Detenção, por exemplo, pode ser atribuída à "segurança" de certas celas. O quinto andar do Pavilhão 9 teve um número de sobreviventes superior ao dos outros andares. Os presos desse andar acreditam que isso se deve, em parte, às 50 celas "compradas" por cerca de 400 presos evangélicos da Assembléia de Deus. Não é recente a prática de compra e venda de celas por integrantes da Assembléia de Deus. O objetivo é reunir os presos evangélicos em celas próximas, para que tenham, com mais facilidade, a assistência de advogados da igreja, pastores e assistentes sociais. Assim acreditam estarem mais protegidos e assistidos (O Globo).