SOCIÓLOGO TEM MEDO DA CULTURA DA MORTE

O Brasil corre o risco de se transformar num Líbano, com o império da lei do olho por olho, dente por dente, se o exemplo da matança da Casa de Detenção de São Paulo for seguido. A opinião é do sociólogo Herbert de Souza, secretário-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas). Para ele, o massacre da Detenção foi um dos fatos mais lamentáveis da vida brasileira nos últimos anos. "É de deixar qualquer pessoa normal estarrecida". Herbert de Souza disse que também ficou estarrecido com a reação das autoridades de São Paulo e de parte da opinião pública. "O militar que atira é um instrumento que recebe de quem está por trás a autorização para matar", afirma. Para ele, a afirmação das autoridades paulistas de que "guerra é guerra" é absurda. É preciso que se destaque, disse, "os mortos eram presos que estavam na prisão, não estavam em guerra, não estavam na praça pública armados até os dentes e ameaçando a segurança da população". Na sua opinião, é um absurdo a Polícia Militar afirmar que se sentiu ameaçada. Analisar a reação da parte da população que aprova a matança é mais complexa, disse. "Eu tenho a impressão de que para muita gente a vida humana perdeu totalmente o valor, criando-se uma cultura da morte", opinou. Segundo Herbert de Souza, a violência está deturpando a percepção de muitas pessoas e fazendo que "matar se transforme num fato normal". A PM violenta só existe "porque por trás está a sociedade civil que a legitima", disse. "A solução do problema não está só em resolver a política penitenciária, mas em mudar o modo de ver a questão da violência e como resolver a violência". Segundo Herbert de Souza, mais do que os mortos, preocupa-o a tranquilidade dos assassinos, "a tranquilidade de como essas autoridades estão dizendo que fariam tudo de novo". Para ele, a solução para a violência é o respeito à lei e à luz dos direitos humanos. "A nossa Constituição foi inspirada nos direitos humanos". A sociedade civil deve tomar o caso de São Paulo como exemplar e ir até o fim para que seja reformulada toda a mentalidade de combate ao crime no Brasil, afirma o sociólogo. Ele considerou ainda que "não dá para educar os PMs para matar e depois lamentar que eles se excederam" (O ESP).