O MASSACRE NO PRESÍDIO DE SÃO PAULO

Foi um genocídio. Esta foi a expressão usada por parlamentares e representantes de comissões de direitos humanos que visitaram ontem o Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, no qual morreram no último dia dois 111 detentos, no maior massacre de presos da história do país. Foram dados tiros nos colchões dos beliches, de baixo para cima, nas
50884 celas onde os presos foram encurralados sem defesa, afirmou o deputado federal José Genoíno (PT-SP). O número de mortos, de acordo com a comissão, pode ser maior do que o oficialmente divulgado. Parentes dos presos-- que envolveram-se em vários incidentes com policiais durante todo o dia de ontem na Casa de Detenção-- ouviram relatos estarrecedores. A maioria morreu com tiros no peito e na cabeça. Muitos tinham braços e pernas quebrados, outros foram metralhados depois de se renderem. Os sobreviventes tiveram de carregar os mortos. Os presos que sobreviveram à chacina dizem que estão sem comida e atendimento médico e alguns deles contaram, através de cartas, algumas cenas de horror da matança. Segundo estes relatos, chamada inicialmente para apartar uma briga entre dois grupos rivais, a polícia invadiu o Pavilhão 9 e metralhou indiscriminadamente. Alguns foram mortos pelas mordidas de cães usados pela polícia. O governo estadual adiou a divulgação do número total de mortos em função da eleição à prefeitura. O governo nega. O secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, disse que somente quando soube do número exato divulgou a informação. Eram 16h30 do dia três, mais de 24 horas depois da entrada da PM no presídio. As entidades de direitos humanos vão pedir a exoneração de Franco e do diretor do presídio, José Ismael Pedrosa. O deputado Jamil Murad (PC do B) vai propor a instalação de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI). A imprensa internacional está dando grande destaque ao massacre. Dados preliminares sobre o massacre na Casa de Detenção foram enviados ontem para a sede da Anistia Internacional, em Londres (Inglaterra), por representantes da organização. A Anistia deve se manifestar sobre o caso e pedir investigação das denúncias às autoridades brasileiras. O cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, considerou os fatos trágicos e únicos na história do país. "Foi um escândalo sem igual até agora na história do Brasil", disse. Dom Paulo informou que a Igreja, junto com a OAB-SP irá formar uma comissão para investigar o que, de fato, aconteceu na Casa de Detenção. A Casa de Detenção de São Paulo, criada em 1961, é um poço de problemas. No dia da invasão pela polícia havia 7.200 detentos, 4.050 a mais que o previsto. É a maior cidade-prisão do país e uma das mais populosas do mundo. Pesquisa do "DataFolha", realizada em julho do ano passado, mostrou que 45% dos presos consideram corrupta a administração do presídio. Segundo 20% dos detentos ouvidos, a corrupção envolve a maior parte dos cerca de 400 agentes de segurança da Detenção (O ESP) (FSP) (O Globo).