O UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) divulgou ontem relatório em que diz que mais da metade das populações infantis da América Latina e do Caribe vivem em estado de pobreza, sujeitas a doenças e privadas de educação, em condições que as condenam a uma vida de exclusão da participação social e política. Segundo o relatório, esta situação não é apenas uma injustiça, mas um desperdício de valiosos recursos humanos. O UNICEF acrescenta que os países do Terceiro Mundo jamais alcançarão a democracia ou o crescimento econômico, sem que seja rompido o ciclo da pobreza, ignorância e doenças. Na América Latina, quatro em cada 10 crianças vivem na pobreza. No total são 78 milhões de crianças que, se sobreviverem aos elevados riscos de mortalidade a que estão expostas, estarão destinadas a ser adultos desempregados, ou só poderão trabalhar em atividades informais, pouco produtivas e mal remuneradas. Só no Brasil existem 28 milhões de crianças nestas condições. Tais revelações fazem parte do informe "Crianças da América", do UNICEF. Ainda de acordo com o informe, às portas do século 21, cerca de um milhão de crianças morrem a cada ano na região, em decorrênciade doenças que poderiam ser evitadas com facilidade, como infecções intestinais e respiratórias. Embora as privações a que estão submetidas as crianças variem de um país para outro, a problemática tem uma raiz única, segundo o UNICEF: "As condições de vida das crianças refletem as grandes disparidades existentes entre os que têm e os que não têm". As disparidades podem ser melhor compreendidas a partir de alguns números que o estudo apresenta sobre o Brasil. Em São Paulo, em bairros de famílias mais abastadas, a taxa de mortalidade infantil, entre crianças de até um ano, é de 20 por mil-- próxima da registrada em países do Primeiro Mundo. Na periferia da cidade, porém, entre famílias de menor renda, a taxa eleva-se a 124 por mil, igualando-se à do miserável Haiti. A disparidade nas taxas de mortalidade registrada em São Paulo é a maior entre todas as capitais pesquisadas pelo UNICEF. O relatório também aponta que em Cuba a taxa de mortalidade infantil é a menor da América Latina: 14 por mil. No informe, o Brasil desponta como um dos campeões da desigualdade na distribuição de renda. Enquanto em Bogotá (Colômbia) os bairros mais pobres registram uma taxa de mortalidade infantil duas vezes maior que a dos bairros de famílias ricas, em São Paulo a diferença entre um setor e outro é superior a cinco vezes. Os rendimentos dos 20% de trabalhadores mais ricos, no Brasil, são 26 vezes maiores que os dos 20% mais pobres. Na Venezuela a diferença é de 11 vezes. Na Espanha, de seis vezes. De acordo com o informe, devido à incapacidade do Estado em romper o círculo da pobreza, ela acaba se transmitindo de uma geração para a outra. As mães mais pobres, por exemplo, são as que têm mais filhos e registram as mais altas taxas de mortalidade (JC) (O ESP).