CÂMARA APROVA "IMPEACHMENT" POR 441 VOTOS A 38

Fernando Affonso Collor de Mello, 43 anos, está afastado da Presidência da República. Em decisão inédita na América Latina, a Câmara dos Deputados autorizou ontem a abertura do projeto de Impeachment" por 441 votos a 38. Houve uma abstenção e 23 audências. A 821 dias do fim de seu mandato, Collor deve deixar o cargo hoje, assim que for notificado da instauração do julgamento no Senado Federal sob acusação de crime de responsabilidade, segundo denúncia da ABI e da OAB. O vice Itamar Augusto Cautiero Franco, 62 anos, assume automaticamente. Será o 37o. presidente do Brasil. A autorização para processar Collor será entregue hoje pelo presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro (PMDB-RS)-- que será o vice- presidente da República no governo Itamar Franco--, ao presidente do Senado, Mauro Benevides (PMDB-CE). O documento será lido no Senado, que elegerá uma comissão especial de 21 membros que terá um prazo mínimo de 180 dias para se decidir sobre o processo. A votação começou às 17h15. Os 336 votos necessários para o impeachment foram alcançados às 18h50 com o pronunciamento do deputado Paulo Romano (PFL-MG). A votação foi interrompida e o plenário cantou o Hino da Independência. A maioria dos deputados, ao declarar o voto, fez um pequeno discurso, em favor da ética na política. Houve, porém, os que não perderam a ocasião para fazer campanha eleitoral. A chamada "tropa de choque" governista ficou impotente diante da debandada dos aliados. Entre as surpresas, os votos pró-Impeachment" do deputado Benito Gama (PFL-BA)- - seguidor do governador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA)-- e Onaireves Moura (PTB-PR), anfitrião do jantar em que Collor atacou adversários aos palavrões. A oposição contou ainda com os votos dos governistas que aderiram na segunda chamada quando o resultado já era conhecido. Manifestações em 17 cidades do país somaram mais de 500 mil pessoas. Em Brasília, cerca de 100 mil pessoas participaram do ato em frente ao Congresso Nacional. Em todo país a população acompanhou a votação e as manifestações públicas terminaram em clima de carnaval com o Hino Nacional. Não foram registrados incidentes. Em nome do Palácio do Planalto, o ministro da Justiça, Célio Borja, anunciou que Collor vai acatar a decisão da Câmara, se defender no Senado e colaborar com a transição. Todos os ministros de Collor se demitiram ontem, coletivamente, mas permanecerão nos cargos até a posse da nova equipe. A aprovação do Impeachment" interrompe o primeiro governo eleito diretamente em 29 anos. Collor cumpriu até ontem 930 dias de governo. Durante a campanha, o "caçador de marajás" anunciou que deixaria "a direita indignada e a esquerda perplexa". Empossado, o mais jovem presidente do país prometeu derrubar a inflação com um único golpe e modernizar a economia. Fez do marketing seu estilo de governo. Foi chamado de Indiana Jones", voou de supersônico, popularizou o jet-ski e estampou suas idéias em camisetas nas corridas de domingo. Mas fixou uma agenda de questões hoje aceita pelo país e deu início ao processo de privatização e abertura econômica. Seu plano econômico, porém, fracassou, apesar do maior confisco de poupança já feito no país. Foi então forçado a rever o estilo auto-suficiente e estendeu a mão para um frustrado entendimento nacional. Isolado, abraçou o fisiologismo e chamou para o ministério nomes do regime militar. Em maio, o irmão Pedro Collor deflagrou a avalanche de denúncias de corrupção que terminaram por depor o governo. Uma CPI foi instaurada para investigar as atividades do empresário Paulo César Farias, amigo e tesoureiro da campanha eleitoral do presidente. Depois de 84 dias de investigações, a CPI conclui que a conduta de Collor era incompatível com "a dignidade, a honra e o decoro" do cargo. Com o julgamento no Senado, Collor é afastado por até 180 dias e passa a depender do veredito para voltar ao cargo. Recebe meio salário e pode se instalar no Palácio da Alvorada. O novo presidente da República é divorciado e tem duas filhas. Eleito duas vezes prefeito de Juiz de Fora (MG) e outras duas senador, primeiro pelo MDB e depois pelo PMDB, fez uma trajetória de oposição aos governos militares. Apesar disso, tem bom trânsito nas Forças Armadas. Ontem, disse que pretende convocar uma reunião com os presidentes de partidos para elaborar um pacto de governabilidade. Avisou que seu principal objetivo será fazer a transição para o parlamentarismo. Em nota oficial, disse que a decisão da Câmara reclama de todos os brasileiros, principalmente dos
50808 que detêm qualquer parcela de autoridade, profunda e serena reflexão. A
50808 nação espera de seus filhos união, paz e trabalho para o resgate dessa e
50808 das futuras gerações. O mercado financeiro reagiu favorável à decisão da Câmara. As bolsas de valores subiram 6,9% no Rio de Janeiro e 7,7% em São Paulo. O dólar no mercado paralelo recuou para Cr$7.450,00 para venda (FSP) (JB) (O Globo) (O ESP) (GM) (JC).