O informe anual do Banco Mundial (BIRD), divulgado ontem, diz que a América Latina cresceu cerca de 3% em 1991. A situação seria ainda melhor, segundo o documento, se o Brasil fosse tirado do mapa. Ao se excluir a economia brasileira do pacote, o resultado se torna mais positivo, de 4,3%. Essa foi a primeira vez em quatro anos que a renda per capita aumentou em termos reais (acima da inflação) na região. Segundo o documento, o BIRD pretende conceder neste ano fiscal, iniciado em julho último, empréstimos num total de US$25,5 bilhões a US$28,5 bilhões aos países em desenvolvimento, contra os US$15,2 bilhões aprovados nos últimos 12 meses-- no total foram US$21,71 bilhões. No ano fiscal de 92, os créditos do BIRD foram os seguintes: Argentina (US$373 milhões), Brasil (US$798 milhões), Chile (US$380,2 milhões), Colômbia (US$366 milhões), México (US$1,489 bilhão) e Venezuela (US$398 milhões). Ainda de acordo com o informe, o PIB per capita na região foi o seguinte: Argentina (US$2.370), Brasil (US$2.680), Chile (US$1.940), Colômbia (US$1.260), México (US$2.490), Uruguai (US$2.560) e Venezuela (US$2.560). Com transferências negativas de US$1,25 bilhão previstas para este ano, o Brasil, nos últimos quatro anos, pagou US$4,66 bilhões a mais do que recebeu do Banco Mundial, além de ter, em 1992, um estoque de US$5,11 bilhões de empréstimos do BIRD e da AIF (associação internacional de fomento), não desembolsados, principalmente por carência de recursos para contrapartidas. De acordo com o informe do BIRD, o fluxo agregado de recursos líquidos para os países em desenvolvimento em 1991 cresceu quase 7% em termos nominais, para US$87 bilhões, vindo de US$81,5 bilhões em 1990, mas de fato decresceu 1% em termos reais. A dívida externa dos países em desenvolvimento alcançou US$1,28 trilhão no ano passado, praticamente o mesmo número de 1990. Isso foi possível porque os novos empréstimos de US$38 bilhões foram equivalentes ao montante de conversão de dívida da Argentina, alívio na dívida do Egito e Polônia, e pagamento de juros atrasados pelo Brasil e Nigéria. O BIRD registra uma continuidade na tendência de crescimento de fluxos não ligados a endividamento para a América Latina. Mas o fluxo líquido de recursos para a região, descontando as remessas de lucros, caiu US$1,7 bilhão em 1991, para US$17,1 bilhões. Ao todo o BIRD nota que a melhoria do ambiente para investimentos em alguns países da América Latina permitiu um aumento de 20%, para cerca de US$9,8 bilhões, no investimento direto externo obtido pela região no ano passado. Cerca de um terço desses recursos vei por intermédio de programas de conversão de dívida por investimento. As transferências líquidas para a América Latina, porém, se tornaram mais negativas em 1991, US$8,6 bilhões, vindas de US$6,3 bilhões no ano anterior. Para os países em desenvolvimento como um todo, a transferência líquida negativa caiu no período, de US$16 bilhões para US$13,2 bilhões. A diferença se explica em parte pela retomada de pagamentos de juros pelo Brasil e Argentina, que somou US$3,7 bilhões. Os economistas do BIRD prepararam uma "receita" para ensinar os governos dos países em desenvolvimento a promover a venda de empresas estatais. As sugestões constam também do informe anual da instituição e contém 10 itens. São eles: 1) quanto maior for a abertura do país à economia de mercado, menos difícil será privatizar uma empresa estatal; 2) as estatais que operam em mercados competitivos, "são as principais candidatas à privatização"; 3) é preciso estabelecer bem os esquemas regulamentares apropriados antes de se privatizar monopólios; 4) o objetivo primordial da privatização "deve ser aumentar a eficiência e não maximizar a arrecadação ou mesmo repartir a propriedade de forma ampla ao custo da eficácia de sua administração"; 5) os países podem se beneficiar da privatização da administração através de contratos de administração ou concessões; 6) "em vez de restringir o mercado, favorecendo certos grupos étnicos, tratem de oferecer ações totais ou parciais para obter a aceitação de estrangeiros e outros compradores"; 7) deve-se evitar grandes investimentos em candidatas à privatização. "Os riscos frequentemente são maiores que as recompensas"; 8) "a experiência mostra que a parte trabalhista não tem que perder com a privatização". Os governos devem ser responsáveis pelo pagamento adequado aos desempregados, pela reciclagem dos operários e pela assistência na busca de emprego; 9) "é ideal que se deixe o mercado ditar o preço (da firma a ser privatizada) e que a venda seja feita em troca de dinheiro vivo"; 10) "em todas as privatizações, em todos os países, as transações devem ser transparentes" (O Globo) (GM).