O juiz de Menores do Rio de Janeiro, Liborni Siqueira, deu ontem um prazo de 15 dias para que o presidente do projeto Flor do Amanhã, o ex- carnavalesco Joãozinho Trinta, acabe com as más condições do galpão da Av. Barão de Tefé, na Saúde (zona central do Rio), onde funciona o programa destinado a menores carentes. Caso contrário, a diretoria do projeto será destituída e o local, fechado. Segundo denúncia de promotores encaminhada ao Juizado, no local faltam dormitórios e departamento médico, há sujeira e os banheiros estão em estado precário. O juiz determinou ainda que não poderá mais haver no galpão menores infratores ou homossexuais-- só carentes, conforme está no projeto enviado ao Juizado. Os diretores do Flor do Amanhã terão que apresentar planilha de obras e balanço funcional. O juiz deu ainda um prazo de 10 dias para que Joãozinho Trinta se defenda. O ex-carnavalesco está percorrendo as cidades de Roma (Itália) e Sevilha (Espanha) em busca de financiamento para o projeto. Enquanto isso, 13 jovens expulsos do galpão denunciaram exploração de mão-de-obra, promiscuidade, abuso sexual e as condições anti-higiênicas do local. Os jovens, alguns já maiores de idade, vivem atualmente num terreno na R. Camerino 51, no Centro, onde há um prédio em ruínas e está prevista a construção de um abrigo para menores carentes do projeto. De acordo com os jovens, o motivo alegado para a expulsão foi a falta de verba e que eles já estavam há muito tempo no galpão. Os jovens disseram viver há três semanas no terreno e denunciaram que, antes disso, foram obrigados a trabalhar de graça no galpão, onde são dados 16 cursos profissionalizantes. Os jovens expulsos acusaram diretamente três diretores do projeto: Sérgio Murillo, Lígia Costa Leite e um homem a quem conhecem como Coutinho, que seria gerente financeiro do Flor do Amanhã. Segundo A., de 17 anos, os menores são vigiados por seguranças armados e, ao fazerem qualquer reivindicação, acabam sendo tratados como bandidos, pois a polícia é chamada para intimidá-los. A estética das fezes e da urina é uma estética em transformação, que
50447 contrasta com a estética estática da miséria nas ruas. A insólita tese é do antropólogo Sérgio Murillo, gerente de Cultura e Profissionalização do projeto, e foi usada ontem para justificar a sujeira flagrada, semana passada, pela imprensa no galpão. Ele disse que o galpão é limpado cinco vezes por dia e que não é fácil controlar os menores, que têm uma cultura da rua-- ou seja, a cultura do lixo e da sujeira, segundo Sérgio. "Ninguém vai higienizar menino de rua em três meses. E a burguesia não quer entender isso. Aqui, oferecemos cinco refeições diárias e 16 cursos. Isso é o que deve ser divulgado. Isso é o que o Juizado e o Ministério Público nunca fizeram", afirmou. O antropólogo não contestou praticamente denúncia alguma. Ele disse que o projeto não visa a abrigar ninguém, e sim oferecer aos menores condições para que saiam da rua por conta própria (O Globo).