O desconhecimento de métodos contraceptivos é responsável por 75% das internações por complicações pós-aborto registradas nos hospitais públicos. Apesar disso, apenas 52% das mulheres admitem que provocaram a interrupção da gravidez por medo de punição legal, conforme estudo sobre as consequências do aborto provocado para a saúde da mulher, em fase final de tabulação na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP). O trabalho é patrocinado pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS) e vai servir de base para orientação de linhas de ação para o planejamento familiar. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima em cinco milhões os abortos clandestinos feitos por ano no Brasil. Entre agosto do ano passado e fevereiro deste ano a ENSP acompanhou-- em sete hospitais das redes municipal, estadual e federal do Rio de Janeiro-- 803 casos de aborto induzido, comparando-os com 803 casos de mulheres que levaram a gravidez até o fim. De acordo com o estudo, 70% das mulheres que tiveram complicações usaram o medicamento Cytotec, de uso restrito por normas do Ministério da Saúde-- indicado para úlcera gástrica-- que causa contrações uterinas e a expulsão do feto. A baixa escolaridade é o fator comum entre as mulheres que induziram aborto: apenas 13,9% das pacientes pesquisadas tinham instrução acima do primeiro grau. A idade média da mulher que faz aborto é 24 anos. A maioria (55,7%) não é casada e 49,9% trabalham fora. A pobreza também é uma característica comum: 38,6% delas têm renda familiar abaixo de dois salários-mínimos; 34% moram em favelas; 51,9^ em bairros populares e 64% em casas alugadas (O ESP).