COLLOR COGITA FAZER PACOTE

O governo estuda um conjunto de medidas-- na área política e no plano da economia-- para pressionar deputados a votar contra o Impeachment" e promover mudanças radicais na política econômica do ministro Marcílio Marques Moreira, numa tentativa de reduzir o desgaste do presidente Fernando Collor junto à população. Na área política, segundo parlamentares de oposição, a estratégia é ameaçar tornar públicas as contribuições feitas por fantasmas para as campanhas de muitos deputados e usar mecanismos oficiais de crédito para comprar votos no Congresso Nacional. Na economia, haveria medidas de impacto-- o chamado Plano Hiroshima. Cogita-se, entre outras possibilidades, de dolarização, congelamento e o alongamento compulsório do prazo de aplicações financeiras. Para pressionar o Congresso, o governo estaria de posse de cheques depositados nas contas de cerca de 120 deputados durante a campanha eleitoral. Essa documentação seria usada agora de forma a constranger os parlamentares a votar contra o Impeachment" na segunda votação na Câmara dos Deputados. Os deputados ficariam livres para votar como quisessem na primeira votação, que apenas acolhe ou não pedido de Impeachment". Essa votação poderia ser aberta permitindo aos congressistas manter sua imagem junto à população. Mas a segunda e decisiva votação, que define se o processo vai ao Senado e se Collor será afastado, pelos planos do governo teria que ser secreta. Os deputados envolvidos nos cheques seriam pressionados a fazer de tudo para garantir isso. Outra forma de comprar votos seria a liberação indireta de crédito aos deputados pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. O mecanismo exige que cada parlamentar indique o nome de alguns correntistas destas instituições que, através das agências de suas cidades, receberiam empréstimos. A direção das duas instituições aprovaria os pedidos e o dinheiro seria depositado, através dos testas-de-ferro, na conta dos parlamentares. Para burlar a fiscalização, esses empréstimos devem ser requeridos em praças distantes. Há também uma promessa do presidente Fernando Collor, acenada à bancada ruralista, de vetar o projeto de reforma agrária aprovado pelo Senado. No campo econômico, são fortes os rumores de que Marcílio perderá o cargo na próxima semana. Desde o dia 28, Collor vem procurando um novo ministro da Economia. Convidou o ex-ministro e deputado Roberto Campos (PDS-RJ), que recusou. Desde então, a alternativa mais plausível passou a ser uma solução interna através da promoção de Lafaiete Coutinho (presidente do BB) ou Luís Antônio Gonçalves (secretário-executivo de Marcílio). A substituição seria acompanhada de medidas de impacto. A hipótese masi comentada entre grandes empresários paulistas envolve dolarização, congelamento e o alongamento compulsório do prazo de aplicações financeiras. Segundo tais suposições, o cruzeiro seria fortemente desvalorizado, com o dólar passando a valer Cr$10.000, paridade que seria mantida fixa a partir de então; seriam, além disso, permitido os depósitos e contratos em moeda norte-americana. Um congelamento dos preços e salários, aliado à fixação da taxa de câmbio, deveria supostamente reduzir a inflação e assegurar a popularidade do plano pelo menos no curto prazo. Todas essas hipóteses foram descartadas ontem por um dos membros do governo envolvido no esforço oficial de barrar o Impeachment". O governo nega o uso dos cheques de campanha e de recursos oficiais para pressionar os parlamentares (FSP).