NAFTA PODE PREJUDICAR O BRASIL

A competitividade brasileira no mercado dos EUA deverá ser afetada pelas concessões feitas ao México no acesso a produtos de altas tarifas e em setores protegidos como cítricos, têxteis e cerâmica. A afirmação é do ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, que participou ontem, na FGV, no Rio de Janeiro, do seminário "Desafios da Integração Hemisférica". De acordo com Lafer, a dinâmica do comércio brasileiro com os EUA poderá indicar alteração do seu quadro. "Assim, diferenciais de tarifas, no caso de commodities, de maior valor unitário, ainda que baixos, podem induzir a uma troca de fornecedores. Companhias poderão realocar investimentos para subsidiárias mexicanas em detrimento das brasileiras", disse. Celso Lafer disse que ainda não tem cópias dos textos do acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México (NAFTA), mas admite que o Brasil poderá reclamar no âmbito do GATT, caso se configure protecionismo por parte das economias que formam o bloco, com consequências negativas sobre as exportações brasileiras. O subsecretário geral de Integração, Promoção Comercial e Cooperação do Itamaraty, Rubens Barbosa, está convencido de que o Brasil só tem a perder com o (NAFTA). "A participação do México neste acordo vai afetar a parte mais dinâmica das nossas exportações", disse. Lafer, baseando-se em dados do BIRD, do Conselho Empresarial Brasil-EUA e das embaixadas brasileiras, afirmou que "algumas consequências são previsíveis para o comércio do Brasil com os membros do NAFTA. O ministro citou uma análise estatística baseada em dados do ano de 1990 em que a maior parte das exportações brasileiras para os EUA, ou seja, 75%, correspondeu a produtos classificados em grupos de baixas tarifas. No grupo de altas tarifas, correspondente aos 25% restantes, é que se encontram importantes itens, como calçados, suco concentrado de laranja, açúcar, fumo, rádios, têxteis, silicone e outros produtos industriais. Em 1990, as exportações mexicanas desses produtos para os EUA somaram apenas US$225 milhões, enquanto as vendas do Brasil atingiram US$1,9 bilhão. Em função desses riscos, o ministro das Relações Exteriores exortou o GATT a estudar a regionalização econômica do comércio mundial. O diretor-geral do GATT, Arthur Dunkel, presente ao seminário, tentou amenizar efeitos da regionalização afirmando que esse tipo de comércio não deve criar dificuldades para o comércio mundial. Disse que a experiência do Mercado Comum Europeu não foi a de restringir o comércio ao bloco, e sim estimular países-membros da comunidade a liberarem ainda mais suas economias. O ministro deixou claro que o Itamaraty considera "ambiciosa" a idéia de integração hemisférica, tal como pretendida pelo presidente dos EUA, George Bush. Ele não descartou a possibilidade de o Brasil vir a explorá- la, mas o primeiro passo, salientou, será aprofundar e consolidar o processo de integração em curso no MERCOSUL. Para o chefe do Gabinete Civil do México, José Córdoba, também presente ao seminário, o principal impacto do NAFTA para os países latino- americanos não se dará no âmbito comercial e sim no de investimentos. Ele está convencido de que a tendência, após a formação do bloco norte- americano, será a dos investimentos migrarem em massa para a economia mexicana, em razão do grande mercado que se criou com esse novo bloco. A integração latino-americana, em especial o MERCOSUL, tem significado não apenas econômico-- eliminação de barreiras, liberação de forças e vantagens comparativas, atração de investimentos e de tecnologia-- mas também político, de aproximação continental inspirada pelo fortalecimento dos valores democráticos e dos direitos humanos, destacou Celso Lafer (JC) (O Globo) (JB) (GM).