O número de pessoas que morreram vitimadas pela AIDS na cidade de São Paulo pode ser 50% maior do que o número registrado pelos serviços de controle epidemiológico. Em outras palavras, no ano passado, a doença não teria matado 2.031 pessoas, como dizem os registros oficiais, mas sim três mil. A revelação é das médicas sanitaristas Célia Barollo e Sônia Miura, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, que se baseiam num tipo de pesquisa inédita no país: o exame do sangue de cadáveres. Elas passaram um ano analisando amostras de sangue fornecidas pelo Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), da Faculdade de Medicina da USP, onde é feita a necrópsia de cadáveres com causa mortis desconhecida. Verificaram que em quase 30% dos casos de morte pela doença, ela não aparece no atestado de óbito. O aspecto mais trágico desta situação, segundo as pesquisadoras, é o risco a que estão expostas as famílias das pessoas que morrem sem identificar a AIDS. Elas verificaram que em 56% dos casos as famílias nem sequer imaginavam que o parente morto estivesse contaminado pelo vírus. Aí se incluíam pessoas casadas e com família, afirmou Sônia Miura (O ESP).