O governo deve começar, desde já, a sinalizar para o produtor com um corte gradual nas linhas de crédito de custeio nas safras futuras, sob pena de acabar inclusive financiando a expansão de áreas plantada no Uruguai e na Argentina. Os riscos do MERCOSUL para o agricultor brasileiro não estão no excedente gerado hoje pela agricultura argentina, que é pouco representativo e até positivo enquanto estímulo à maior produtividade, mas, sim, na expansão do plantio dos produtores brasileiros naqueles países, com capital de giro contratado no Brasil. A afirmação é do presidente da Cooperativa Regional Tritícola Serrana (Cotrijuí), Ruben Ilgenfritz, durante o Encontro Nacional de Crédito Rural promovido ontem, em São Paulo, pela Associação Brasileira dos Bancos Estaduais (Asbace). Sem crédito de investimento para recuperar as terras do Rio Grande do Sul e aumentar a produtividade do estado, os produtores gaúchos poderiam repetir agora, rumo aos países vizinhos, o mesmo movimento que já fizeram antes da ocupação das terras então baratas do Brasil Central. A crítica ao direcionamento do crédito para o custeio das safras foi enfaticamente apresentada pelas lideranças do setor rural presentes ao encontro. A outra grande distorção apontada no atual modelo de crédito rural é a opção do sistema financeiro de direcionar os recursos para empresas de insumos ou então cooperativas de produção, como forma de reduzir seus riscos. As cooperativas de produção devem sair do financiamento direto a cooperados, afirmou Ademar Chardong, presidente da Cooperativa Central de Crédito Rural do Rio Grande do Sul Ltda. (Cocecrer). Ao tomar crédito junto aos bancos para repassar aos cooperados e expandir as operações de troca de insumos por colheita futura, a cooperativa está assumindo grandes riscos. Se eles se efetivarem, a cooperativa estará quebrada, disse Chardong. Da mesma forma corre riscos o produtor que contar com 100% de recursos de terceiros, numa atividade como a agricultura, em que, por razões climáticas ou de mercado, a renda tende a naturalmente oscilar de um ano para outro, afirmou o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Pedro Camargo Neto, que vem desaconselhando os produtores a contratar crédito de custeio nesta safra (GM).