O Brasil está diante de um quadro internacional que não é favorável à expansão de suas exportações, comentaram ontem fontes do Itamaraty, em seminário para a imprensa sobre o papel do MERCOSUL e da integração latino-americana para o comércio exterior brasileiro. O fim da Guerra Fria limitou ainda mais a participação da América Latina no mercado mundial. A formação de megablocos proporcionou uma perda de espaço comercial para os países da região. Em 1970, 8% do comércio internacional era feito com a América Latina. Em 1989 essa participação caiu para 3,5% e no período 1990-91 desceu para 2%. Em matéria de investimento, em 1980, 13% das inversões mundiais foram direcionadas para a região. Nos dois últimos anos, essa cifra caiu para cerca de 5%. Diante desse quadro, a "posição do Brasil é delicada", comentou uma fonte diplomática, explicando que 65% das vendas externas do país se dirigem para os EUA e a CEE, dois mercados problemáticos. Para o mercado norte- americano, 70% das exportações são de manufaturados, que serão prejudicados pela nova Área de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), unindo EUA, Canadá e México. Em relação à CEE, 70% das exportações são de produtos agrícolas, que a partir de 1o. de janeiro de 93 deverão se submeter a critérios rígidos relacionando comércio à preservação ambiental. Além disso, também em 93 será criado o espaço ampliado europeu, que unirá a CEE à Associação Européia de Livre Comércio (EFTA), outro dado negativo para o Brasil: os ex-países europeus socialistas deverão redirecionar suas compras para os seus parceiros da Europa Ocidental, através de acordos de associação. Por todas essas razões, o Itamaraty considera que a América do Sul é a principal zona de comércio para o Brasil e, dentro dela, o MERCOSUL. Em 90, o comércio intra-regional era de US$3,1 bilhões. Em 91, pulou para US$4,9 bilhões e, neste ano, deverá atingir mais de US$6,5 bilhões, estimam os diplomatas. O Brasil, que exportava US$1,3 bilhão para o MERCOSUL, em 90, passou a vender US$2,3 bilhões em 91 e, de janeiro a julho deste ano já registra US$2,1 bilhões. Em meio à consolidação das regras que farão funcionar o MERCOSUL, os diplomatas começam a se inquietar com assuntos como a criação ou não de instituições-- conselho de ministros e comissão executiva, semelhantes às existentes na CEE. Os países já começam a discutir se perderão ou não a soberania e se serão submetidos a um organismo supranacional, informaram os diplomatas. Nas próximas reuniões do Grupo Mercado Comum, os quatro países discutirão se será oportuno transformar o acordo "quatro mais um" entre o MERCOSUL e os EUA em um acordo que englobe agora o NAFTA. Outro assunto que preocupa nesse momento é o impacto das Zonas Francas sobre o MERCOSUL. Um grupo de trabalho reuniu-se ontem pela primeira vez e terá seis meses para apresentar suas recomendações. O Grupo Mercado Comum do MERCOSUL está analisando três novos temas da agenda: regras comuns para os investidores estrangeiros, normas para os oligopólios e formas de facilitar a conversão agrícola e industrial. O Uruguai saiu na frente e conseguiu que o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) aprovasse um projeto de reconversão de 18 setores da economia, de US$245 milhões. O Rio Grande do Sul já apresentou proposta ao Ministério da Economia no mesmo sentido. O pedido gaúcho será encaminhado ao BID (GM).