AS CONSEQUÊNCIAS DO NAFTA EM RELAÇÃO AO BRASIL

O novo bloco econômico em formação na América do Norte, o NAFTA (EUA, Canadá e México), deverá ter impacto a médio e longo prazo sobre o Brasil e o MERCOSUL. Os três países representam o segundo mercado para as exportações brasileiras, só superado pela CEE. Os empresários ainda não conseguem dimensionar com clareza os efeitos desse acordo para seus negócios. Mas não disfarçam sua inquietação com relação ao isolamento do país nesse novo cenário econômico mundial. A indústria automobilística, só com o MERCOSUL, não tem sobrevida, afirmou o presidente da ANFAVEA, Luiz Adelar Scheuer. A Mercedes-Benz do Brasil, por exemplo, já está negociando com a Mercedes do México um acordo pelo qual, a partir de 93, ela passará a adquirir naquele país US$20 milhões em componentes, cifra que subirá a US$60 milhões em 95. O México é o principal mercado da Mercedes brasileira, que para lá deverá embarcar neste ano 700 ônibus, no valor de US$100 milhões. Um grupo de 50 fabricantes de autopeças também está negociando um acordo de fornecimento com a General Motors dos EUA, que prevê um aumento no volume de exportação de US$80 milhões para US$400 milhões. Os mais receosos são os setores que produzem bens também ofertados pelo México, como suco de laranja, café, embalagens plásticas e mesmo autopeças. Muitos empresários, entretanto, vêem no novo bloco uma oportunidade de ampliar seus negócios por intermédio do México. É o caso, por exemplo, do setor calçadista. Segundo a ABICAL>ADOS, os mexicanos estão negociando com os fabricantes de calçados do Brasil a formação de joint ventures. O comércio entre o Brasil e o México somou, em 1991, US$1 bilhão, sendo cerca de US$700 milhões de exportações brasileiras. Neste ano, somente nos primeiros três meses, as trocas atingiram US$430 milhões. Segundo a embaixada mexicana em Brasília, o comércio entre os dois países aumentará, porque é intenção do presidente Carlos Salinas de Gortari firmar acordos de livre comércio com os países da região, individualmente, ou no âmbito do MERCOSUL. Segundo estudo do BIRD, no entanto, o "índice de convergência" entre as exportações brasileiras e mexicanas para os EUA é mais elevado do que o de qualquer outro país latino-americano. Por essa razão, o Brasil seria, também, um dos mais prejudicados com a formação de uma zona de livre comércio na América do Norte. O especialista norte-americano em comércio exterior, Royal Daniel III, preparou um estudo para o Brazil/US Business Council. O trabalho conclui que as oportunidades para o desvio de comércio dos EUA para o México, de forma a afetar o Brasil, são limitadas porque um terço das exportações brasileiras para o mercado norte-americano tem tarifa zero. Outro terço tem tarifas baixas. Somente um terço tem alíquotas altas. É o caso de açúcar, suco de laranja congelado, tabaco, glutamato de monossódio, calças para mulheres, calçados, nióbio de ferro, rários para carro e revólveres. O Itamaraty não quis pronunciar-se ontem sobre a criação do NAFTA por desconhecer o texto do tratado. A chancelaria brasileira encomendou à FUNCEX um estudo sobre os efeitos do NAFTA na economia brasileira. A chancelaria argentina também não se manifestou sobre o acordo de livre comércio da América do Norte (GM).