REORGANIZAÇÃO ECONÔMICA PASSOU PELO AJUSTE FISCAL

Na Argentina, como no Brasil, o governo enfrentou duras críticas à política econômica e acusações de corrupção. Mas, lá, encontrou um contexto político mais favorável a seu programa econômico. A avaliação é do ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, que participou ontem, em Brasília (DF), de um seminário sobre desregulamentação promovido pelo Banco Central. Cavallo reconheceu o esforço do ministro da Economia, Marcílio Marques Moreira, e da sua equipe. Comentou, porém, que o contexto político aqui é bem mais complexo que na Argentina. O Brasil está na mesma direção de desregulamentação econômica por que
49256 passou a Argentina, mas, do ponto de vista político, o fenômeno no Brasil
49256 é mais complexo, afirmou Cavallo. Em junho, na reunião do MERCOSUL, em Las Len~as (Argentina), o ministro foi mais otimista. Disse acreditar que os problemas políticos brasileiros seriam facilmente superáveis. Essas declarações foram anteriores às denúncias do motorista Eriberto França, sobre o pagamento de despesas da Casa da Dinda com dinheiro de PC Farias. O ministro argentino lembrou que pôde enfrentar as pressões por aumento de gastos graças ao plano de dolarização, que impede o financiamento de despesas com emissão de moeda ou o aumento da dívida pública sem garantia de reservas em dólar. Ele advertiu, porém, que a dolarização só foi adotada após o governo ter garantido equilíbrio no orçamento e a redução das dívidas externa e interna. Sem querer "vender" a solução argentina (a dolarização) ao caso brasileiro, Cavallo preferiu dar ênfase à necessidade do ajuste fiscal para que qualquer plano econômico tenha sucesso. Para Cavallo, implantar a livre conversibilidade do peso em relação ao dólar sem essa certeza seria repetir o horror de fixar a taxa de câmbio, sem o respaldo de uma política fiscal e monetária que preservasse o poder da moeda. A posição foi referendada pelo presidente do Banco Central do Brasil, Francisco Gros. Ele fez questão de lembrar que sua posição em relação às sugestões de dolarização da economia brasileira: "Da experiência argentina não devemos buscar o superficial, mas os seus pontos fundamentais: o equilíbrio fiscal e orçamentário". Cavallo também chegou a fazer um protesto em relação a como os brasileiros interpretam o plano argentino. "Vocês chamam de dolarização, quando o que fizemos foi justamente o contrário. Recuperamos a noção de que o país tem uma moeda com valor estável", disse. Cavallo explicou os quatro programas fundamentais que permitiram a reorganização da economia de seu país: reforma do Estado (desburocratização), privatização de empresas públicas e os programas de reforma fiscal e tributária. Cavallo disse que, através do programa de privatização, a Argentina deverá chegar nos primeiros meses de 1993 com uma redução de US$13 bilhões em suas dívidas interna e externa. Neste ano, disse, será gasto 2% do PIB da Argentina para o pagamento de serviços das duas dívidas-- mesmo percentual que será usado em 1993. Segundo ele, o PIB da Argentina cresceu 8% no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período de 1991. As exportações apresentaram o mesmo aumento, em igual período. Este fato tranquiliza o ministro ante a possibilidade de as importações também aumentarem quando da implementação do MERCOSUL. "A Argentina atravessou um período em que houve fuga de capital. Mas, com a reformulação da nossa economia, a situação atual é inversa. Além do mais, nossas exportações e o consumo interno estão crescendo", afirmou (O Globo) (JB) (GM).