O processo de integração do MERCOSUL enfrenta, a partir de agora, um de seus maiores desafios, traduzidos pelo descontentamento das indústrias argentinas em relação à forte expansão das exportações brasileiras para seu mercado. A observação é do professor da Universidade de Buenos Aires, Roberto Lavagna, ao lembrar que nos primeiros seis meses deste ano o Brasil registrou um superávit comercial com a Argentina da ordem de US$600 milhões, que deverá crescer para US$1 bilhão até o final de 1992. Os empresários reunidos na União das Indústrias Argentinas já
49235 apresentaram pleitos para a adoção de salvaguardas generalizadas contra as
49235 exportações do Brasil, o que é um absurdo num processo de integração.
49235 Além disso, crescem os pedidos para salvaguardas setoriais, disse ele, ao participar ontem, no Rio de Janeiro, de seminário da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (FUNCEX). Essa situação, na opinião de Lavagna, resulta, em grande parte, da forte defasagem cambial da Argentina em relação ao dólar e ao cruzeiro. Pelos seus cálculos, os atrasos cambiais do peso atingem, atualmente, cerca de 40%, comprometendo as exportações e os investimentos do país e estimulando as importações. Quando da adoção do Plano Cavallo, a moeda argentina já registrava sobrevalorização de 25% ante o dólar e de março de 1991 até hoje acumulou-se uma nova sobrevalorização de cerca de 15%, disse ele. Roberto Lavagna não defende a adoção de desvalorizações do peso, mas sim a introdução de medidas corretivas pontuais, capazes de redirecionar os gastos públicos para a promoção das exportações e dos investimentos. Da mesma forma, o economista Aldo Ferrer, também da Universidade de Buenos Aires, acredita que a perda de competitividade do setor produtivo argentino, provocada pelos atrasos cambiais, é, hoje, um dos principais problemas para a implantação definitiva do MERCOSUL. Aliado a isso está também o aumento nos preços dos insumos básicos, resultante do processo de privatização de empresas argentinas. O embaixador Rubens Barbosa, chefe do Departamento de Integração do Itamaraty, acredita que os próximos dois anos e meio representarão um desafio maior para a implementação do MERCOSUL, em razão da necessidade de compatibilização de interesses do setor privado dos quatro países. O fato é que as defasagens cambiais da Argentina já contribuíram para um crescimento de 142% nas exportações brasileiras para aquele mercado nos primeiros seis meses deste ano. A Argentina absorveu nesse período US$1,26 bilhão em produtos brasileiros, passando para segundo principal mercado para o Brasil (GM).