CÂMBIO ARGENTINO PREJUDICA MERCOSUL

A dolarização da economia argentina começa a se transformar em um grande obstáculo para o projeto de integração dos quatro países que formam o MERCOSUL. Na avaliação do ex-ministro da Economia da Argentina, Aldo Ferrer, a livre conversibilidade do peso em relação ao dólar norte- americano, implantada há mais de um ano pelo governo de Buenos Aires, começa a mostrar sinais negativos na balança comercial do país. O Plano Cavallo, lançado pelo ministro da Economia, Domingo Cavallo, já
49197 provoca uma defasagem cambial de 30% a 40%, disse Ferrer, ontem, durante seminário organizado pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (FUNCEX), no Rio de Janeiro, para discutir o MERCOSUL. Segundo o economista, o congelamento cambial com a paridade de 1 peso por dólar provoca o fenômeno da desindustrialização: "Se o plano continuar a ser aplicado, a Argentina deverá enfrentar nos próximos meses sérias pressões sociais em decorrência do desemprego". Apesar das turbulências econômicas em outros países da região, o seminário concluiu que o problema de fundo no MERCOSUL continua sendo o argentino. Para Ferrer, a dolarização resolveu uma necessidade imediata-- a de redução da inflação--, mas criou novas questões, que colocam a economia argentina em bases muito vulneráveis. "Apesar de a arrecadação fiscal ter apresentado resultados positivos nos últimos meses, o setor industrial registrou saldo negativo e baixa capacidade de investimento e modernização, o que, em última análise, reduz a competitividade dos produtos argentinos dentro e fora do país", afirmou. Segundo Aldo Ferrer, as crescentes importações pela Argentina de produtos brasileiros por conta do câmbio defasado já provocam resistências ao MERCOSUL. A balança comercial da Argentina no comércio com o Brasil deverá ter um déficit de US$700 milhões este ano. No primeiro semestre deste ano, as exportações brasileiras para a Argentina cresceram 141,86%, contra uma queda de 6,97% para o Paraguai e 0,29% para o Uruguai. Tarifas, câmbio e representação política são hoje os três principais pontos de discussão para a formalização, em 1995, deste mercado, calcado no exemplo da CEE, na opinião do embaixador Rubens Barbosa, chefe do Departamento de Integração Latino-Americana do Itamaraty. Barbosa disse ontem que "resolvidas estas questões, a zona de livre comércio e a união aduaneira entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai estarão seladas". De acordo com o embaixador, este será o primeiro passo para a consolidação de um bloco econômico entre esses países (O ESP) (JC) (O Globo).