VIEIRA NÃO EXPLICA "OPERAÇÃO URUGUAI" À CPI

Vencidas as 72 horas que recebeu da CPI do caso PC Farias, o ex-secretário do presidente Fernando Collor, Cláudio Vieira, não conseguiu apresentar provas definitivas de que as despesas do presidente não são pagas pelo empresário alagoano. A CPI concedeu novo prazo, até o próximo dia três. Em seu depoimento, Vieira não soube tirar as dúvidas sobre o suposto empréstimo tomado no Uruguai que, segundo ele, foi usado para pagar as contas da Casa da Dinda. Disse que não houve registros, não informou a origem do dinheiro e não explicou como os recursos entraram no Brasil. Admitiu não ter declarado o endividamento ao Imposto de Renda e causou risos ao explicar que espera a ajuda de Collor para pagar os US$3,750 milhões até 1996. O ex-secretário de Collor disse que o doleiro Najun Turner lhe fora indicado por Paulo César Farias para cuidar do dinheiro tomado em Montevidéu. O gestor das contas do presidente disse que em 1989 não existia qualquer sociedade entre PC e Turner. "Estranho, e estranho muito, que hoje esteja demonstrada alguma sociedade entre os dois. Na época do empréstimo, não havia esta sociedade", disse, referindo-se aos depósitos na conta da secretária do presidente, Ana Acioli, de sete "fantasmas" cuja ligação com PC já está provada pela CPI. Há várias evidências de que a principal prova apresentada por Vieira em seu depoimento foi forjada. O documento do escrivão uruguaio sobre o empréstimo não possui, por exemplo, carimbo e selo que aparecem nesse tipo de certidão. Não existe também o carimbo do consulado brasileiro, carimbo informando sobre honorários, impostos e recolhimento da contribuição ao Montepio da Caixa Notarial e informações sobre a pessoa jurídica Alfa Trading. O advogado Valdo Hallack ameaçou "tomar todas as providências e atirar todas as pedras" se ficar confirmado que o contrato do empréstimo é falso. Hallack fora chamado pelo empresário Alcides Diniz, a pedido de Vieira, para dar parecer sobre o contrato e viajou ao Uruguai em busca de documentos que compovassem sua legalidade. A secretária Sandra de Oliveira, outra testemunha de que a versão de Vieira foi montada, depõe hoje na CPI. O presidente Collor vai ser citado em inquérito que a Polícia Federal vai enviar ao Supremo Tribunal Federal. O inquérito será fruto do desmembramento de outro processo, aberto para investigar as atividades de PC no governo. A citação de Collor abre a possibilidade para que o procurador-geral da República denuncie o presidente por crime comum. Os indícios levantados até o momento envolvendo o presidente apontam para o crime de corrupção passiva. Caso fique provada a falsidade do empréstimo apresentado à CPI por Vieira, Collor também corre o risco de ser denunciado por falsidade ideológica. Ele assina o documento como avalista. Técnicos da Receita Federal estimam que Vieira deve cerca de US$3,748 milhões em impostos não recolhidos, multas e juros. A estimativa foi feita com base no depoimento de Vieira na CPI. O procurador da República no Rio Grande do Sul, Januário Paludo, pediu ontem à Justiça Federal a prisão preventiva do doleiro Najun Turner. Ele é acusado de contrabando de ouro em processo que tramita desde 1987. Turner foi apontado por Vieira como responsável pelas aplicações do empréstimo da "Operação Uruguai" (FSP) (O Globo) (JB).