Falta de ética sempre foi assunto no Brasil. De questões cotidianas às mais altas hierarquias do Poder, a discussão perpassa todos os níveis da sociedade. A situação inédita é a ampla divulgação de acusações envolvendo um presidente da República, jamais vista no país. Fundamentadas ou não, são gravíssimas e vêm provocando não apenas indignação, mas a promoção da conscientização social e política. Resumindo: o clamor geral por comportamentos éticos pode finalmente levar ao direito à cidadania-- algo que a maior parte da população talvez não tenha sequer ouvido falar. Entre os que acreditam nos efeitos didáticos da crise está o sociólogo Herbert de Souza, secretário-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas). Para ele, o fato de atingir gravemente a credibilidade do presidente, desmitifica a visão autoritária de que apenas o cidadão comum é passível de receber punições. "Os pobres e os que cometem pequenos crimes lotam as cadeias. A parcela da elite que foi presa até hoje talvez coubesse num conjugado", ironiza. O presidente da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil-Rio de Janeiro), Sérgio Zveiter, concorda com Herbert de Souza. Enfatizando que a crise pode ser resolvida sem abalos na estabilidade do regime democrático, Zveiter diz que este momento representa um marco concreto da mudança de mentalidade. Solucionada pelos mecanismos legais disponíveis, observa, deve servir de exemplo para uma minoria de corruptos. Ao mesmo tempo, caso a apuração das denúncias demonstre que são verdadeiras, punir os responsáveis seria o primeiro passo para mostrar que corrupção e impunidade não são mais aceitas no Brasil. Acredito na forma das instituições. Se o presidente Fernando Collor for
48946 ladrão, vai para a cadeia como qualquer um. Tudo isso gera maior
48946 conscientização política. Leva ao povo a sensação de que é necessário
48946 combater crimes, além de alertá-lo para seus dereitos e as formas pelas
48946 quais os problemas devem ser solucionados, afirma. Este amadurecimento social é um dos motivos para que Sérgio Zveiter não creia que haja cumplicidade da sociedade com a crise ética. Outro é o passado histórico de lutas por justiça social, cujas armas sempre foram as idéias e argumentação. Segundo Herbert de Souza, entretanto, "nada ocorre na sociedade sem algum tipo de participação ou aprovação". Ele cita o exemplo do assassinato de crianças, tornado possível graças às expectativas de cerca parcela da sociedade. Da mesma forma, a corrupção teria chegado ao nível atual porque muitos consideram a situação normal. Certamente ninguém aprova abertamente. Mas boa parte das pessoas acha que
48946 corrupção é coisa corriqueira. A célebre Lei do Gerson (O importante é
48946 levar vantagem em tudo) foi ultrapassada. Deveríamos falar em Lei de
48946 Mário Amato, que recentemente declarou: somos todos corruptos. Não é por
48946 aí, mas a cumplicidade existe e trata-se de uma questão fundamental. A
48946 luta pela ética na política passa pela recuperação do sentido ético na
48946 sociedade, afirma. Se ainda não veio a recuperação total, pelo menos estamos chegando lá. O secretário-executivo do IBASE chama a atenção para a condenação à inflação, unanimidade que já representa a aspiração por valores éticos. O mesmo se dá em relação aos movimentos em defesa do consumidor. Além disso, o fato de poder ser atingido até a Presidência da República demonstraria a expressividade do grau de conscientização social. "Os movimentos pela valorização da ética estão dando resultados", diz. Quanto ao trabalho da CPI, tanto Zveiter quanto Herbert de Souza acreditam na seriedade com que serão investigadas as acusações. Ambos apontam a imposição da sociedade como motivo para que os parlamentares não dêem o caso por esquecido. "A OAB é favorável à apuração dos fatos sem manobras que arranhem as instituições democráticas", afirma Zveiter. Compartilhando do mesmo ponto de vista, Herbert de Souza acrescenta que as denúncias já são parte da punição. "A CPI será empurrada pela sociedade para que a impunidade acebe no Brasil", afirma. A crença na atuação correta dos parlamentares que integram a CPI não vem apenas do poder de pressão da opinião pública. Para que a sociedade se empenhasse tanto no sentido do não esquecimento, o papel da imprensa é considerado fundamental. Sintonizados com os problemas, foram os meios de comunicação que levantaram os fatos, a partir das denúncias de Pedro Collor contra o irmão presidente. Nem toda a mídia participa deste processo. As TVs mantêm seu papel de
48946 Diário Oficial, pondera Herbert de Souza, lembrando que foram as revistas, e não os jornais, que inicialmente cumpriram a função de divulgar e correr atrás de mais informações. A opinião pública se manifesta via jornais e revistas. Hoje, quando se
48946 vai à banca, é como participar de um comício. Se não houvesse interesse
48946 e mobilização, as tiragens não chegariam a dobrar. Este é, na verdade,
48946 um fato político e não apenas de mercado, afirma. Sérgio Zveiter enfatiza a importância da imprensa na divulgação de fatos diretamente ligados à Presidência da República, antes impossível, em função do regime autoritário (JC).