URUGUAI DEMONSTRA RESISTÊNCIA À ADOÇÃO DE POLÍTICA COMUM

A integração proposta pelo Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), pelo menos no setor de lãs, parece longe de ser alcançada. Segundo as lideranças gaúchas do setor, estaria havendo uma forte resistência do Uruguai para a adoção de políticas comuns de produção e comercialização da matéria- prima entre os quatro países do bloco (além do Brasil e Uruguai, participam a Argentina e o Paraguai). O Rio Grande do Sul detém quase a totalidade dos 9,5 milhões de ovelhas lanígeras do país, e responde por 98% da produção nacional de 25 mil a 26 mil toneladas de lã ao ano, 85% das quais exportadas na forma de "tops" (cintas de lã lavada e penteada), representando uma receita de US$100 milhões. Uma demonstração de resistência foi a reunião em Assunção, Paraguai, de 8 a 10 de junho, patrocinada pelo Subgrupo 8 do Tratado do MERCOSUL (que analisa as questões agrícolas), na qual a delegação uruguaia escalada para discutir a produção laneira regional não compareceu, não justificou a ausência e tampouco sinalizou com a possibilidade de vir a participar de um novo encontro para tratar do assunto. Na reunião quadripartite da capital paraguaia, foram detalhadas as produções de carnes bovina, suína e de frango, ovos, couro e subprodutos, fumo e cigarros, soja e derivados, mas lã e carne ovina ficaram de fora das discussões, como relata o engenheiro-agrônimo Adayr Coimbra Filho, delegado pela Secretaria da Agricultura gaúcha desde abril último para coordenar o assunto no MERCOSUL. Para ele, a ausência uruguaia significou não apenas a perda de uma oportunidade, o desperdício de três reuniões preparatórias (em 29 de abril, 11 e 27 de maio, todas em Porto Alegre, a última de caráter nacional, com 15 entidades públicas e privadas), mas, principalmente, uma declaração tácita de que o país vizinho não quer questionar o tema. Dono de um rebanho com 25 milhões a 26 milhões de ovelhas, que produzem de 90 a 94 mil toneladas de lã ao ano, das quais 90% são exportadas, rendendo cerca de US$362 milhões, o Uruguai tem, na lã, uma importante comodity, responsável por 25% do total exportado pelo país. "O produto está para a economia uruguaia como o aldodão para a brasileira", salienta Coimbra, reclamando da disparidade da importância econômica de lã para a Argentina (exportação de 80% das 120 mil toneladas produzidas anualmente, rendendo US$300 milhões, ou 3% das vendas externas) e para o Brasil (0,3% das vendas internacionais), sendo praticamente nula no Paraguai. O tratamento uruguaio ao produto também é diferenciado. O ovinocultor uruguaio não paga imposto direto sobre a matéria-prima, enquanto o brasileiro é taxado em 13% de ICMS. Ao comercializar sua safra, o produtor uruguaio pode receber em moeda norte-americana, a vista, ao passo que no Brasil as cooperativas recebem a produção em dezembro-janeiro, repassam um adiantamento variável ao produtor associado e só vão liquidar a operação de três a quatro meses depois, distribuindo os rendimentos obtidos na comercialização global promovida neste período. Queremos igualdade de tratamento, pediu o assessor técnico da Fecolã (Federação das Cooperativas de Lã do Brasil Ltda.), José Antônio Barreneche Leães, lembrando que, por força das conversações do MERCOSUL, os uruguaios prometeram zerar o reintegro até 1994, quando a zona de livre comércio regional passa a vigorar. "Mas nossa preocupação é que eles criem outros mecanismos de proteção que escapem do MERCOSUL", destaca ele. Temos que enfrentar o protecionismo do governo uruguaio, disse o diretor- superintendente do Lanifício do Rio Grande do Sul, Thomaz Albornoz S/A, de Santana do Livramento, Thomaz Albornoz Neto, referindo-se à linha de crédito oficial uruguaia que facilita a importação de equipamentos fabris, com um prazo de pagamento de 10 anos e três de carência. Além disso, continua ele, a produção uruguaia tem forte participação de grupos internacionais (GM).