NEM SUPER-SAFRA AJUDOU OS TRATORES

Enquanto a indústria de automóveis do país contempla perspectivas de crescimento, a indústria de tratores continua atolada em más notícias. Nem mesmo a supersafra ajudou. As vendas de tratores de rodas no primeiro semestre recuaram 9,6% em relação ao mesmo período de 1991, e o ano deverá fechar com 13 mil unidades vendidas. Confirmada a previsão, 1992 seria o sexto ano consecutivo de retração do mercado interno. O único alento para o setor: as exportações cresceram 64,5%, para 2.759 unidades. O agricultor brasileiro está descapitalizado, diz o diretor de Relações Externas da Ford New Holland e vice-presidente da ANFAVEA para a área de tratores, Pércio Luiz Pastre. "Há crédito, mas as dificuldades reais e psicológicas da economia brasileira estão inibindo as vendas". A única saída, segundo ele, seria a adoção de um financiamento cujos custos acompanhassem a variação do preço do produto agrícola, o que poderia dar um mínimo de estabilidade para o agricultor. Em 1991 os oito fabricantes de tratores de rodas do Brasil tiveram prejuízos e as projeções para 1992 não são diferentes. Com um agravante: se a recuperação do mercado internacional demorar muito poderá haver casualidades entre as empresas. "A tendência seria reduzir a pulverização da produção", diz Pastre. O setor tem capacidade de fabricar 85 mil tratadores de roda por ano, mas a produção atingiu apenas 21.400 unidades em 1991, nível que deve ser repetido este ano. Frota velha-- Segundo Pastre, o volume de tratores novos que entra no mercado interno a cada ano já está abaixo da taxa anual de substituição de unidades velhas, calculada por ele em torno de 35 mil. "A frota brasileira, de 550 mil tratores, está diminuindo, envelhecendo e perdendo produtividade, o que prejudica os níveis de segurança, consumo, custo e aproveitamento com que estes tratores estão sendo usados". No Brasil há um trator por 100 hectares de área cultivada, enquanto a média mundial é de um trator por 50 hectares. O Brasil já chegou a consumir 63 mil tratores/ano, em 1976, recorde até hoje não superado. O melhor ano, a partir dali, foi 1980, com 51 mil unidades. Em 1986, com a febre do Plano Cruzado, o mercado atingiu 46 mil tratores, mas a média de 1987 a 1991 foi de 27 mil unidades. Em 1987 o setor empregava 28 mil trabalhadores; hoje emprega 15 mil. A crise também atingiu os revendedores de trator, que já somaram 1.200 mas que hoje estão perto de mil. É difícil que o mercado interno retorne aos níveis de 1976. "O trator atual é mais produtivo que o daquela época", justifica Pastre. A indústria, porém, precisa que a produção volte logo às 40 mil unidades/ano, nível atingido pela última vez em 1988. Segundo Pastre, com tal volume a indústria pode baixar o custo unitário do produto, ter lucro e promover investimentos em tecnologia. Caso contrário, a racionalização entre os oito fabricantes do setor pode ser inevitável. "A maioria das empresas do setor opera só no Brasil e isso diminui o poder de fogo e resistência desses produtores". Mercado potencial-- Outro fator que poderá acelerar a racionalização é o MERCOSUL. Os fabricantes argentinos deverão entrar em breve no mercado brasileiro. "A ANFAVEA e a Afat (Associação dos Fabricantes Argentinos de Tratores) estão discutindo o acordo bilateral para o setor", confirmou Pastre. As trocas deveriam ter começado em 1992 mas foram adiadas para 1993. A redução das alíquotas de importação, que caem para 20% em 1993, também preocupa a indústria nacional. "A capacidade ociosa na indústria mundial de tratores é grande e a alíquota nesse nível torna-se perigosa", segundo Pastre (O ESP).