EXPLICAÇÃO PARA APATIA DIVIDE ANALISTAS

Depois de tantos escândalos e denúncias de corrupção na administração pública, a atual apatia da população nada mais é do que o reflexo de um estado de saturação. "Neste momento, a população está demonstrando que ir para as ruas e fazer manifestações seria o mesmo que dar soco em paralítico ou derrubar uma coisa que já está caindo de podre", explica a cientista política Maria Vitória Benevides, professora da Universidade de São Paulo. "O presidente Collor perdeu até mesmo aquela simpatia que os brasileiros têm com as vítimas, porque ele é arrogante. Mesmo quando pede para que não o deixem só, a maneira é arrogante". O sociólogo Herbert de Souza, secretário-executivo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), do Rio de Janeiro, acha que o fato de a população estar esperando que a solução para a crise aconteça em um "cenário institucional" não é sinônimo de desmobilização, e sim de amadurecimento democrático. Segundo ele, se a população for convocada às ruas, para clamar pela ética política e pelo fim da corrupção, atenderá ao chamado, desde que seja feito por partidos ou entidades civis. O aprendizado democrático não é feito só nas praças, comenta, acrescentando que não foi à toa que as revistas com denúncias de corrupção esgotaram suas edições e foram xerocopiadas por muita gente. Elas são reflexo direto da opinião pública, disse. Para Maria Vitória Benevides, as pessoas se saturaram porque desde o começo do governo pipocam denúncias. "E há essa crise econômica seríssima. Se baixam um pacote econômico, não tenho dúvida de que as pessoas iriam protestar nas ruas, acrescenta. Para o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo, José Roberto Batochio, a apatia é resultado da exaustão da nação. "A nação está exausta da cleptocracia, dessa casta de pessoas que tomam de assalto o poder público. Não se vislumbra mais a possibilidade de encontrar na classe política pessoas confiáveis". Para o segundo semestre, Batochio informa que a OAB fará grande campanha nacional para a revalorização da cidadania. O diretor do Instituto Gallup, Carlos Eduardo Matheus, acha que a razão da apatia é que as pessoas não sabem mais o que pode ser feito para mudar a situação. "Mas essa apatia pode ser aparente. Soube que o PT está organizando um movimento pró-impeachment e isso pode virar um grande incêndio", alerta Matheus. "A raiva, a desilusão e a frustração também aparecerão nas próximas eleições, e o primeiro sinal deverá ser comícios fracos". O cientista político Bolívar Lamounier e o jurista Celso Bastos discordam que a acomodação signifique apatia. "Não se fala em outra coisa", argumenta Bastos. "Existe também uma preocupação de se garantir a tranquilidade necessária para que o resto do país funcione normalmente", acredita Lamounier (JB).