PRESSA PODE SER PREJUDICIAL

O pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Marcos Saraiva Jank esteve durante três anos na Europa, acompanhando de perto a formação da Comunidade Econômica Européia (CEE) e se mostra preocupado ao ver o rumo que o irmão latino-americano da CEE, o MERCOSUL, começa a trilhar. Ele afirma que o principal problema do processo de criação do mercado comum aqui é o curtíssimo prazo que os governantes estão impondo ao processo. Ele explica que a formação da CEE começou na década de 1960 e só está chegando à reta final agora. "Aqui, querem repetir o caminho percorrido pelos europeus ao longo de 35 anos, em apenas quatro anos", afirma. Ele diz que não adianta implantar o MERCOSUL sem controle do déficit público de cada país, e faz uma simples comparação: "Não se pode resolver a bagunça de quatro casas derrubando as paredes que as dividem". Lista negra-- Jank diz que o Brasil tem mais a ganhar nos setores industrial e de serviços com a abertura do mercado, e tem mais a perder justamente na agricultura. Ele colocou num disquete de computador gráficos que demonstram quais os produtos nacionais que sofrerão uma concorrência destrutiva, uma espécie de lista negra, encabeçada pelo trigo e seguida por arroz, soja, lácteos (leite em pó e queijos), algumas frutas (uva e pêssego), alho, batata e cebola. Os argentino perdem com café, frango, cacau e açúcar. Um problema pouco explorado pelos governos dos quatro países é a questão cambial. Hoje, por exemplo, o câmbio cruzeiro-dólar está próximo da realidade: fala-se numa diferença de 10%, no máximo. Enquanto o câmbio argentino, congelado há quase um ano, criou uma supervalorização da moeda nacional. "As importações argentinas estão batendo recordes e só não existe problema de falta de divisas porque a comunidade internacional está investindo muitos dólares no país", afirma Jank. Migração-- Na Europa, o problema foi contornado com alguma dificuldade. Vinte anos antes de se propor uma moeda comum da CEE, em 1969, os europeus criaram uma paridade cambial que compensava a flutuação do câmbio. Todas as vendas de produtos agrícolas são feitas por este "câmbio verde", que não reflete necessariamente o câmbio atual das moedas européias. Jank diz que o produtor brasileiro poderá arriscar uma migração súbita, para contornar as desigualdades. O tratado de Assunção prevê um intercâmbio livre não só de produtos mas, também, de meios de produção, o que significa que qualquer cidadão dos quatro países poderá ter terras, tratores, enfim, poderá ser proprietário e poderá produzir em qualquer país do MERCOSUL. Mesmo sem essa liberdade, hoje, muitos brasileiros já migraram para os países vizinhos, mas tiveram de tirar a dupla cidadania (O ESP).