Os produtores gaúchos estão preocupados em dobro com o MERCOSUL, porque a proximidade dos parceiros comerciais reduz os valores dos fretes e aumenta as condições de competitividade dos importados. Conforme o presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (FARSUL), Hugo Eduardo Guidice de Paz, a moeda do MERCOSUL será a produção agropecuária, porque os países vizinhos do Brasil só têm produtos agrícolas para oferecer em troca dos manufaturados da indústria nacional. Paz afirma que o superoferta de produtos agropecuários poderá deprimir os preços mais do que já ocorreu este ano, em função da supersafra. E diz que em produtos como o trigo o prejuízo já existe, antes mesmo da queda das tarifas. "Desde a assinatura do compromisso oficial de importar dois milhões de toneladas de trigo argentino, a produção brasileira desabou de sete milhões de toneladas para quatro milhões", afirma. Os gaúchos temem, em especial, a concorrência para a carne, o leite e o arroz. E prevêem a perda dos mercados cativos de São Paulo e Paraná para a Argentina. Paz acha que a única forma do produtor brasileiro não correr riscos após a abertura do MERCOSUL seria a inflação do país cair a valores semelhantes aos dos países vizinhos (12% ao ano); o fim das políticas monetárias que inviabilizam o setor agrícola; e uma equalização nos preços dos produtos em função das flutuações da taxa de câmbio e redução na carga tributária. Reuniões técnicas-- O presidente da Cooperativa Agrícola de Cotia, Américo Utumi, também defende a necessidade de um estudo comparativo de cada produto agrícola, para identificar fatores externos que influem nos custos de produção. Ele dá um exemplo das discrepâncias: o Paraguai. Lá não existe nem sequer imposto de renda. "Como poderemos simplesmente comparar preços entre um país como esse e o Brasil, que tem 57 impostos diferentes?", pergunta. Utumi acredita que mesmo com a manutenção de algumas alíquotas compensatórias, que iriam contrabalançar estes desníveis nos custos de produção, haverá setores da agropecuária bastante atingidos pela abertura. Ele acha que serão necessários programas intensos de diversificação na produção para não criar uma crise no campo, e afirma que o papel das cooperativas será fundamental. O setor agrícola é o que mais avanços realizou no sentido de implantar de fato o MERCOSUL. Em quatro reuniões técnicas, realizadas até agora pelo Conselho Consultivo de Cooperação Agrícola dos Países da Área Sul (Conasul), já foram definidas perto de 50 normas de padronização e classificação técnica, que servirão para regular o mercado comum, trabalho que deverá ser repetido pelos outros setores da economia (O ESP).