O primeiro dia de reuniões do MERCOSUL terminou com a assinatura pelos países-membros de um acordo que vai permitir abrir caminho para o desenvolvimento de uma das maiores vias fluviais internas do mundo, onde serão investidos US$900 milhões em 10 anos. Os chefes de Estado do Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai-- este dois últimos sem saída para o mar-- assinaram um acordo pelo qual bolivianos e paraguaios serão ligados à região Noroeste do Brasil e a portos argentinos e uruguaios por um canal de três mil quilômetros pelos Rios Paraná e Uruguai. O ato-- chamado "Santa Cruz de La Sierra" porque a rota passa pela Bolívia-- prevê transporte fluvial entre Caceres, no Paraguai, e Nova Palmira, no Paraná. O ato formaliza o funcionamento da hidrovia, que está em prática desde o ano passado. E pode facilitar a obtenção de empréstimo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) de US$7 milhões. O programa prevê pelo menos 10 anos de obras e custará quase US$1 bilhão. Entre os produtos que terão sua comercialização facilitada, estão a soja em Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Na Bolívia, a hidrovia beneficiará a indústria siderúrgica, já que a Argentina é sua consumidora. Argentina será beneficiada no transporte de suas exportações agrícolas. O ministro da Agricultura, Antônio Cabrera, mostrava-se satisfeito com os resultados do MERCOSUL. Segundo ele, a partir do próximo mês, manteiga, leite em pó e queijos terão harmonização técnica nos quatro países, o que, segundo ele, facilitará a competitividade e as vendas. Outro ministro satisfeito era Sócrates Monteiro, da Aeronáutica. Ele chegou à Argentina com o presidente da EMBRAER, Ozires Silva, no avião CBA-123 (Cooperação Brasil-Argentina), que já está voando experimentalmente há quase um ano. "A minha idéia é vender o maior número desses aviões possível. O CBA tem 19 lugares, custa US$5 milhões e começará a ser fabricado em série a partir do ano que vem, logo que seja homologada a autorização para a sua fabricação", disse o ministro. O presidente argentino, Carlos Menem, assinou acordo unilateral que anistia os moradores clandestinos das fronteiras do Brasil, Paraguai, Uruguai, Chile e Bolívia. Os seis presidentes brindaram os avanços dos acordos com champanhe. O presidente do Chile, Patricio Aylwyn, ficou poucas horas no complexo turístico de Las Len~as, apenas o tempo necessário para assinar o acordo, e o presidente boliviano, Jaime Paz Zamora, deixa a cidade hoje. O anfitrião, presidente argentino Carlos Menem, continua na região com seus colegas Fernando Collor, do Brasil; Andres Rodriguez, do Paraguai; e Luiz Lacalle, do Uruguai, para analisar a marcha do processo de integração do MERCOSUL. O acordo sobre vias navegáveis (hidrovia) assinado ontem pode ser concretizado no ano 2001 e vai permitir o transporte fluvial de produtos minerais e agrícolas desde o interior do continente, barateando os custos de exportação dos países sem saída para o mar, segundo admitiram os presidentes. A chancelaria argentina informou ontem que o projeto será coberto em três etapas, que serão cumpridas gradualmente, de acordo com as exigências do mercado. Na primeira etapa, cada país tornará navegável seu trecho dos rios, dragando-o até uma profundidade de três mestros. Depois serão investidos US$240 milhões em intalações portuárias e finalmente US$500 milhões em uma frota de barcos de carga. Esses investimentos ficarão a cargo do setor privado. A reunião dos presidentes do MERCOSUL já registra pelo menos duas gafes. O ministro dos Transportes brasileiro, Affonso Camargo, foi o primeiro a confirmar sua presença, levando todos os outros ministros dos Transportes da região a fazer o mesmo. Na última hora, Camargo desistiu de ir e mandou um representante. A maior gafe veio do anfitrião Carlos Menem ao escolher como local do encontro Las Len~as, um complexo de esqui que já esteve à beira da falência, a 2,2 metros de altitude, com precárias ligações telefônicas com o resto do mundo-- incluindo a própria Argentina. As dificuldades enfrentadas pelos técnicos dos governos reunidos no MERCOSUL e pela imprensa levaram Menem a desculpar-se publicamente (JC) (O Globo) (JB).