As três centrais sindicais-- CUT, CGT e Força Sindical-- fizeram ontem em São Paulo uma autocrítica de sua atuação nos últimos anos e se debruçaram sobre os desafios que enfrentarão até a virada do século. Concluíram que têm de participar das discussões sobre reformas estruturais e inserção do Brasil na economia mundial, e não apenas exercer um papel reivindicatório. Foi esse o ponto alto do debate "O Sindicalismo Brasileiro na Nova Conjuntura", promoção do Inae (Instituto Nacional de Altos Estudos), ao qual compareceram, entre outros, o ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso, o empresário Paulo Setúbal e os professores Leôncio Martins Rodrigues e José Pastore, da USP. Foram os sindicalistas, porém, que deram o tom do debate. O movimento precisa assumir um papel político na sociedade se quiser ter
47885 voz nas grandes decisões que terão de ser tomadas nos próximos anos, disse Lúcio Latani, diretor da Força Sindical. "O MERCOSUL, por exemplo, está sendo discutido pela cúpula, sem a participação da base da sociedade". Discurso semelhante foi o de Dalton Amaral, secretário-geral da CGT. Segundo ele, certos setores do movimento, a própria CGT entre eles, mantiveram distância excessiva dos partidos políticos, até com certo desprezo". Foi um equívoco, disse. "Agora, temos como meta eleger representantes que sirvam como ponte para nossas reivindicações". Mesmo a CUT, que sempre manteve uma ligação muito forte com o Partido dos Trabalhadores, não escondeu suas deficiências. Segundo Jorge Lorenzetti, diretor da CUT, a entidade conta com uma base de 17 milhões de trabalhadores, mas apenas cinco milhões deles são sindicalizados. "Ainda não representamos efetivamente essa base", disse. O empresário Paulo Setúbal, presidente da Duratex, também interveio. Para ele, a abertura e a modernização da economia do país implicam perda de poder para as lideranças sindicais. "A discussão se resume a ocupar mais mão-de-obra, com baixos salários, ou menos, ganhando mais, disse. Embora as três centrais prometam lutar pela mudança da atual legislação sindical, o professor Leôncio Martins Rodrigues, da USP, considera pouco provável tal hipótese. Em sua opinião, o sindicalismo brasileiro não está preparado para viver num regime de liberdade, abrindo mão, por exemplo, do imposto que é repassado pelo governo. "Creio que 95% das entidades classistas não têm como enfrentar o patronato sem o amparo da atual legislação", disse. A recessão enfraqueceu a pressão sindical e o número de greves. Esta foi uma das conclusões do debate. Com a abertura da economia e a consolidação da democracia, a tendência é de que diminuam os atritos entre capital e trabalho, ao mesmo tempo em que se exige mais competência e organização do movimento sindical, observou o secretário-geral da CUT, Gilmar Carneiro (FSP) (O Globo).