ANALISTAS ARGENTINOS E O MERCOSUL

Os analistas argentinos que seguem de perto o processo de integração com o Brasil dentro do MERCOSUL se vêem cada dia mais preocupados. Num princípio marcavam notáveis assimetrias entre as políticas de um país e do outro. Hoje essas diferenças já se transladaram às cifras do comércio exterior: estima-se que a Argentina terá um déficit da balança comercial com o Brasil de cerca de US$1 milhão em 1992. Porém, essa situação é um dos aditivos necessários para que este seja o momento ideal para começar ótimos negócios dos dois lados da fronteira. Nos últimos três anos, os economistas argentinos mostravam-se otimistas com relação ao futuro do MERCOSUL. Tinha muito a ver com isto que as cifras de intercâmbio com o Brasil eram positivas para a Argentina. Hoje acontece tudo o contrário, pois as diferenças objetivas que mostram ambas as economias resultam um obstáculo para a integração e, por sobre tudo, existe um desequilibrio para o intercâmbio de mercadorias. Os números do primeiro trimestre de 92 são eloquentes neste sentido. Em fevereiro de 1991 o Brasil exportou para Argentina US$52,8 milhões. No mesmo mês deste ano, US$113,6 milhões. Em março de 91, a Argentina comprou no Brasil por US$61 milhões. No terceiro mês de 1992, US$245,3 milhões, cifra que ainda se teria superado em abril, enquanto as importações brasileiras de produtos argentinos continuam em tendência decrescente. Além da recessão do mercado interno brasileiro, com a sua conseguinte queda do consumo e a promoção às exportações que isso significa, os argentinos ainda hoje lembram quando faz alguns anos exportavam a qualquer preço, ainda perdendo, com tal de obter divisas sólidas, o que resultava mais barato que recorrer aos bancos. Agora consideram que isso é o que está acontecendo no Brasil. Compreendem-no, mas não o aceitam. Daí que na última reunião de ministros do MERCOSUL, realizada em maio, em Buenos Aires, os representantes locais tenham apontado uma série de assimetrias a serem analisadas. Nesse marco, se interpreta na Argentina que no Brasil existe uma potencial necessidade de capitais e de exportar. Deste lado da fronteira, no entanto, certa disponibilidade de acesso ao dinheiro e uma demanda importante de produtos. E essas são condições totalmente compatíveis. É dessa maneira que no momento atual florescem as oportunidades de todo tipo de associação binacional. É caso de uma fabricante argentina de torneiras de alta qualidade, que fez um acordo com uma indústria de artigos sanitários brasileira e intercambian mercadoria. Ou o da Brasil Sul Confecções, de Porto Alegre (RS), que vende 70% de sua produção de maiôs de ginástica e natação a uma importadora argentina. Toda empresa argentina que está pensando em procurar uma cabeça-de-praia no Brasil, tem que entender que este é o momento para procurar algum tipo de associação, salienta o economista Raul Ochoa, de Buenos Aires, reconhecido consultor em temas de comércio exterior. Do seu ponto de vista, as atuais circunstâncias não podem ser melhores para achar sócios do outro lado da fronteira. E os argentinos que queiram crescer têm que compreendê-lo agora, porque depois será tarde. Além disso, para as empresas brasileiras, a Argentina representa a quinta parte da população do Brasil, a capacidade média de compra é superior e, também, a oportunidade de encontrar clientes para produtos de uma certa sofisticação que não poderiam colocar em alguns outros países. A conjuntura não parece ser a melhor, se prestamos atenção às declarações dos políticos e dos economistas. Ochoa, por exemplo, aponta "não só as diferenças do tipo de câmbio entre um país e o outro, as que provocam fluxos artificiais de produtos, tal como acontecia há tempo desde a Argentina para o Brasil e agora no sentido contrário". Acrescenta também que "o saldo comercial em favor do Brasil em 1992 vai equivaler a não menos de 25% do total comerciado. E Argentina verá diminuir suas exportações para o Brasil em 10%". Ele mesmo esclarece que, não obstante, há segmentos que não sofrerão câmbios nas tendências que já vinham se evidenciando. É o caso dos pêssegos em calda: a competitividade da indústria argentina do setor, por razões que têm a ver com o clima, solo e variedades, acabará por deslocar a produção brasileira. O que realmente pode mudar no futuro, disse, é o perfil dos exportadores que operam de um e do outro lado. Cinquenta e sete por cento dos US$547 milhões que o Brasil exportou para a Argentina, esteve concentrado em 40 empresas quase todas elas multinacionais localizadas em ambos lados da fronteira (O ESP).